domingo, 12 de abril de 2026

Estudos de Caso?

por Renato Paulo Nicácio Pedrosa


"A abordagem delineada por Eisenhardt é uma resposta a uma década de fortes e reiteradas solicitações por uma pesquisa mais qualitativa, contextualizante e interessante" Dyer e Wilkins, 1991.


Textos:

EISENHARDT, K. M. Building theories from case study research. Academy of Management Review, v. 14, n. 4, p. 532-550, 1989. DOI: 10.2307/258557.

YIN, Robert K (2005). Estudo de caso: planejamento e métodos. 2. ed. Porto Alegre: Bookman.


O artigo de Eisenhardt (1989) no Academy of Management Review propõe um roteiro para a construção de teorias a partir de estudos de caso. A autora parte de um diagnóstico de fragmentação: havia peças metodológicas disponíveis na literatura — Glaser e Strauss (1967) sobre grounded theory, Yin (1981, 1984) sobre design de pesquisa, Miles e Huberman (1984) sobre análise de dados qualitativos — mas sem integração sistemática nem clareza sobre quando e como empregá-las conjuntamente. O artigo se propõe a preencher essa lacuna com dois movimentos: oferecer o roteiro integrado e situar a construção de teoria por estudos de caso no contexto mais amplo da pesquisa em ciências sociais.

A literatura prévia contribuiu com fragmentos valiosos, mas dispersos. Glaser e Strauss detalharam o método comparativo contínuo, enfatizando a emergência de categorias a partir dos dados. Yin trouxe rigor ao design dos casos e formulou a lógica de replicação essencial à análise múltipla. Miles e Huberman codificaram técnicas de apresentação e gestão de dados qualitativos. Pesquisadores ativos como Gersick, Harris e Sutton, e a própria Eisenhardt com Bourgeois, acrescentaram variações práticas não previstas nos manuais. O resultado era um campo metodologicamente rico, porém sem mapa.

O estudo de caso é definido como estratégia de pesquisa voltada à compreensão das dinâmicas presentes em contextos singulares. Pode envolver caso único ou múltiplos casos, um ou vários níveis de análise, e combinar fontes diversas — arquivos, entrevistas, questionários, observação. Os dados podem ser qualitativos, quantitativos ou ambos. O que distingue a abordagem aqui discutida das demais possibilidades do estudo de caso é o seu propósito específico: não descrever nem testar teoria, mas gerar teoria — construir, a partir da imersão empírica, proposições que ainda não existiam antes do contato com os dados.

A pesquisa deve começar com uma questão de pesquisa definida, ainda que em termos amplos. A especificação a priori de construtos potencialmente relevantes é útil não como compromisso teórico, mas como andaime provisório para medir com mais precisão o que eventualmente emergir como importante.

A seleção de casos obedece a uma lógica teórica, não estatística. Casos são escolhidos por sua utilidade para replicar ou estender a teoria emergente, para preencher categorias conceituais, ou para representar tipos polares que tornem o fenômeno de interesse transparentemente observável. Não se busca representatividade amostral — busca-se diversidade teoricamente controlada. A definição prévia de uma população delimita a variação extrínseca e circunscreve o domínio de generalização das conclusões. Entre quatro e dez casos costumam funcionar bem: abaixo desse intervalo, a teoria resultante tende a ser empiricamente fraca; acima, o volume de dados se torna ingovernável.

A triangulação de múltiplos métodos de coleta fortalece o fundamento empírico da teoria emergente. Entrevistas, observação e fontes arquivísticas são os mais comuns, mas a combinação de dados qualitativos e quantitativos é especialmente fecunda. Os dados quantitativos previnem que o pesquisador se deixe dominar por impressões vívidas, porém enganosas, enquanto os dados qualitativos explicam os mecanismos subjacentes às relações detectadas. O uso de múltiplos investigadores amplifica o potencial criativo do estudo e reduz o risco de fechamento prematuro, na medida em que perspectivas divergentes entre os membros da equipe impedem a convergência apressada sobre interpretações parciais.

Uma característica marcante da pesquisa geradora de teoria (Theory Building Research) é a sobreposição entre coleta e análise de dados. Isso não é desorganização. É "oportunismo controlado": o pesquisador acompanha a emergência de temas e ajusta instrumentos, acrescenta casos ou fontes de dados conforme o campo revela dimensões inesperadamente relevantes. As notas de campo exercem papel central nesse processo, funcionando como registro contínuo tanto de observações quanto de análises incipientes. A flexibilidade aqui não é licença metodológica, mas sensibilidade ao dado: a capacidade de perceber o que o campo está oferecendo antes que o protocolo original o descarte por irrelevância presumida.

A análise "intracaso" precede qualquer esforço de generalização. Cada caso é tratado como entidade autônoma, e sua compreensão aprofundada — por meio de narrativas descritivas, tabelas, gráficos longitudinais ou transcrições — permite que seus padrões singulares emerjam antes de serem comprimidos em comparações "intercasos". O volume de dados em pesquisa qualitativa é tipicamente esmagador, e a análise "intracaso" é o primeiro mecanismo para não morrer, como Pettigrew advertiu, por "asfixia de dados". Familiaridade íntima com cada caso é condição para a comparação cruzada subsequente ser analiticamente produtiva, e não apenas descritiva.

A busca de padrões entre casos é movida por um diagnóstico cognitivo sóbrio: pesquisadores são processadores de informação notoriamente falhos, propensos a conclusões precipitadas, excessivamente influenciados por dados vívidos, e inclinados a descartar evidências negativas. A resposta metodológica é forçar o olhar por múltiplas lentes divergentes: selecionar categorias e buscar similaridades intragrupo e diferenças intergrupo; comparar pares de casos à procura de semelhanças surpreendentes ou diferenças inesperadas; dividir os dados por fonte e verificar a convergência ou conflito entre elas. O objetivo não é a confirmação das primeiras impressões, mas precisamente a sua "falsificação".

Das análises intra e intercasos emergem temas, conceitos e relações tentativas. O próximo passo é comparar sistematicamente esse quadro emergente com a evidência de cada caso, em iteração contínua entre dado e teoria. Dois processos compõem essa etapa: o refinamento dos construtos — definição precisa e construção de evidência triangulada que os sustente — e a verificação das relações emergentes em cada caso individual, segundo a lógica de replicação: cada caso funciona como um experimento, e a recorrência do padrão em múltiplos casos confere validade interna. Casos que não confirmam as proposições emergentes são especialmente valiosos: frequentemente revelam condições de contorno que aperfeiçoam e ampliam a teoria.

A teoria emergente deve ser confrontada com a literatura existente — tanto com o que a contradiz quanto com o que se assemelha a ela. A literatura conflitante não é ameaça a ser neutralizada: é oportunidade de aprofundamento, pois, a necessidade de reconciliar achados aparentemente incompatíveis força um modo de pensamento mais criativo e potencialmente transformador. A literatura convergente, por sua vez, amplia a validade interna e a generalização ao mostrar que fenômenos semelhantes foram observados em contextos muito distintos. Em pesquisa geradora de teoria, que tipicamente repousa sobre número pequeno de casos, cada suporte externo adicional é um ganho significativo de credibilidade.

O encerramento do processo tem dois critérios complementares: parar de adicionar casos quando a saturação teórica é atingida; isto é, quando casos adicionais oferecem aprendizado marginal decrescente; e parar de iterar entre teoria e dados pelo mesmo motivo. Na prática, considerações pragmáticas como tempo e recursos frequentemente determinam o ponto de encerramento antes da saturação plena. O produto final pode ser conceitos, um quadro conceitual, proposições, ou teoria de médio alcance. Pode, também, ser decepcionante: mera replicação de teoria anterior, ou ausência de padrões discerníveis. Isso é admitido honestamente, o que é em si um traço metodológico relevante.

A autora reconhece sua dívida com Glaser e Strauss, Yin, e Miles e Huberman, mas demarca três diferenças. Primeiro, o foco exclusivo na construção de teoria e não na análise de dados qualitativos, no design de casos, ou na etnografia. Segundo, a inclusão de elementos novos: a especificação a priori de construtos, análise a cruzada de casos e o uso deliberado da literatura. Terceiro e mais revelador, a adoção explícita de uma visão positivista: o processo visa hipóteses testáveis e teoria generalizável, distanciando-se de Strauss e Van Maanen, que priorizam a descrição rica e singular sobre a generalização.

A geração de teoria a partir de estudos de caso apresenta três forças principais. A primeira é a probabilidade de gerar teoria genuinamente nova: a justaposição contínua de evidências contraditórias tende a "descongelar" o pensamento e favorecer reenquadramentos criativos. A segunda é que os construtos emergentes já foram medidos durante o processo, o que os torna operacionalizáveis; ao contrário de construtos importados de outros campos sem lastro empírico direto. A terceira é a validade empírica: a teoria resultante tende a espelhar a realidade de perto, pois foi construída em contato íntimo e contínuo com os dados.

As mesmas características que geram as forças produzem fraquezas simétricas. A riqueza empírica tenta o pesquisador a construir teorias excessivamente complexas, sacrificando a parcimônia que é marca de boa teoria. A orientação indutiva a partir de casos específicos pode resultar em teoria estreita e idiossincrática/específica (útil e válida para o fenômeno estudado, mas incapaz de alcançar o nível de generalidade de teorias como dependência de recursos ou ecologia populacional). Eisenhardt (1989) capitula e, no meu entender, enfraquece o argumento central do texto ao dizer que talvez a "grande" teoria requeira acumulação de múltiplos estudos, e não possa emergir de um único processo de construção a partir de casos. Talvez um vício dado sua cosmovisão admitidamente positivista.

Segundo a autora, a abordagem é especialmente apropriada em duas situações: quando pouco se sabe sobre um fenômeno, tornando a construção incremental de teoria impossível; e quando perspectivas existentes parecem insuficientes — empiricamente frágeis, mutuamente contraditórias, ou conflitantes com o senso comum. Não é método para o estágio maduro de uma linha de pesquisa consolidada, mas para suas bordas — onde o conhecimento ainda está em formação ou onde uma perspectiva fresca pode renovar territórios já muito explorados pela ciência normal.

A avaliação de uma pesquisa construtora de teoria deve girar em torno da qualidade da teoria produzida, não apenas da correção dos procedimentos. Boa teoria é parcimoniosa, testável e logicamente coerente. A isso se somam critérios empíricos: rigor analítico, evidência adequada para cada construto, e eliminação de explicações alternativas. Na ausência de coeficientes de correlação ou distribuições F-Fisher (Análise de Variância), o que garante confiança é a transparência: exibir evidência suficiente para que o leitor possa aplicar seus próprios critérios de julgamento. Finalmente, estudos fortes apresentam insights novos. Ou seja, pesquisa que apenas replica teoria anterior é contribuição modesta demais para justificar o esforço indutivo.

Eisenhardt (1989) conclui que a maioria dos estudos empíricos vai da teoria aos dados, mas que o avanço do conhecimento requer o movimento inverso também. O artigo é um convite a que pesquisadores completem o ciclo, indo dos dados à teoria com o mesmo rigor que a direção oposta demanda. A teoria construída a partir de casos tende a ser nova, testável e empiricamente válida — forças que derivam precisamente do vínculo íntimo com a evidência. Seu nicho de aplicação é o início da pesquisa sobre um tema, ou o momento em que uma perspectiva nova é necessária. Os passos do processo estão sintetizados na Tabela 1 do artigo resenhado e se resume em: (1) Preparar o Terreno, (2) Selecionar os Casos, (3) Produzir os Instrumentos e os Protocolos, (4) Ir a campo, (5) Analisar os Dados, (6) Modelar as Hipóteses, (7) Correlacionar com a Literatura Vigente e (8) Concluir o Estudo por saturação teórica. A autora serve como um guia prático para a defesa de escolhas metodológicas e, de minha parte, eu a utilizei em meu pré-projeto. Um bom contraponto à autora que eu recomendo, contudo, pode ser encontrado em "Better Stories, Not Better Constructs, to Generate Better Theory: A Rejoinder to Eisenhardt" de Dyer e Wilkins (1991) de onde veio a citação que abriu essa resenha.


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O segundo capítulo de Yin (2005) trata do design de pesquisa em estudos de caso. Essa etapa que, ao contrário do que ocorre em experimentos ou surveys, não conta com um catálogo padronizado. O autor alerta para uma armadilha recorrente: confundir o estudo de caso com um subtipo de quasi-experimento, equívoco que persiste até hoje. Mas um dos próprios autores da tipologia original já se encarregou de corrigir. A ausência de codificação formal não significa ausência de lógica; significa que o pesquisador precisa construir ativamente o encadeamento que conecta dados, questões e conclusões.

Para o autor, o design de pesquisa é definido como o plano lógico (não logístico) que conecta as questões iniciais às conclusões finais. Sua função principal é evitar que a evidência coletada simplesmente não responda ao que foi perguntado. Cinco componentes estruturam um bom design: (1) as questões de pesquisa, (2) as proposições (se houver), (3) a definição do caso, (4) a lógica que conecta dados às proposições e (5) os critérios para interpretar os achados. Os três primeiros orientam o que coletar; os dois últimos antecipam o que fazer com o que foi coletado. O caso deve ser sempre um fenômeno do mundo real com manifestação concreta e não uma abstração, um argumento ou uma hipótese flutuando sem ancoramento empírico.

Segundo Yin (2005), a teoria no estudo de caso não precisa ter a grandiosidade das grandes teorias das ciências sociais. Basta uma proposição suficientemente elaborada (uma "história hipotética" sobre por que certos atos, eventos, estruturas e pensamentos ocorrem). O paradoxo da teoria, lembrado por Diane Vaughan, é que ao mesmo tempo em que ela indica onde olhar, ela pode impedir de ver. Isso não é argumento contra o uso de teoria prévia, mas razão para manejá-la com consciência. A teoria cumpre dois papéis complementares: orienta a coleta e, após o campo, torna-se o veículo principal para a generalização analítica — que é o modo específico pelo qual estudos de caso generalizam seus achados. Ao contrário da generalização estatística, que infere características de uma população a partir de uma amostra, a generalização analítica eleva os achados a um nível conceitual superior ao do caso específico, argumentando sua aplicabilidade a outras situações concretas. Casos não são unidades amostrais e nunca devem ser tratados como tal — nem mesmo sob o eufemismo de "amostra intencional".

Conforme o autor, quatro testes são aplicáveis à qualidade de qualquer design em pesquisa social empírica, e os estudos de caso não escapam deles. A validade de construto exige que os conceitos sejam operacionalizados com precisão e que as medidas escolhidas correspondam a esses conceitos: a crítica mais frequente ao estudo de caso é precisamente a negligência desse requisito, com pesquisadores substituindo operacionalização por julgamento subjetivo. A validade interna é relevante apenas para estudos explicativos: trata-se de assegurar que as inferências causais são legítimas e que explicações rivais foram consideradas e descartadas. A validade externa diz respeito à generalização dos achados. Yin reitera que o caminho correto é a generalização analítica, não estatística. A confiabilidade, por fim, exige que os procedimentos sejam documentados de forma suficiente para que outro pesquisador, seguindo os mesmos passos, chegue aos mesmos resultados: o padrão do auditor.

Nesse sentido, os designs de estudo de caso organizam-se numa matriz 2×2: caso único versus casos múltiplos, cruzado com design holístico versus design mesclado ("embedded"). O design holístico examina o caso como unidade global; o design incorporado reconhece subunidades de análise dentro do caso principal e as estuda sistematicamente. Cada combinação tem suas forças e armadilhas. O design holístico corre o risco de operar em nível de abstração excessivo, evitando a operacionalização necessária. O design incorporado corre o risco oposto: afundar nas subunidades e perder o caso principal de vista, transformando o fenômeno de interesse em mero contexto do que se tornou, inadvertidamente, outra pesquisa. Um risco transversal a qualquer design é o deslizamento silencioso — quando as questões iniciais se deslocam sem que o pesquisador perceba ou reconheça, gerando uma pesquisa que responde a perguntas que não foram feitas.

Yin (2005) diz que o estudo de caso único se justifica em cinco situações: (A) quando o caso é crítico para testar uma teoria com proposições claramente especificadas; (B) quando é incomum ou extremo, desviando de padrões teóricos ou cotidianos de forma que merece documentação; (C) quando é comum, e seu interesse reside precisamente no que seu caráter ordinário pode revelar sobre processos sociais mais amplos; (D) quando é revelador, abrindo ao escrutínio científico um fenômeno previamente inacessível; e (E) quando é longitudinal, permitindo examinar o mesmo caso em dois ou mais momentos distintos para capturar mudanças ao longo do tempo. A vulnerabilidade do caso único é colocar todos os ovos numa cesta só — daí a necessidade de investigar cuidadosamente o candidato antes de qualquer comprometimento definitivo com o design.

Por outro lado, argumenta que estudos de caso múltiplos devem seguir uma lógica de replicação, não de amostragem. Yin ainda insiste nessa distinção com a mesma determinação com que Eisenhardt a sustenta. Cada caso funciona análogo a um experimento (sem sê-lo): pode-se buscar replicação literal (resultados similares em condições similares) ou replicação teórica (resultados contrastantes, previstos de antemão por razões teóricas). O número de casos não é determinado por fórmula estatística, mas pelo grau de certeza desejado e pela força das explicações rivais que se quer refutar. Um achado que sobrevive a múltiplas replicações (literais e teóricas) tem sustentação analítica incomparavelmente superior ao de um caso único. O diagrama de procedimento para estudos de casos múltiplos (Figura 2.5) inclui um importante ciclo de confirmação: se um caso desvia inesperadamente das proposições originais, o design deve ser revisado antes de prosseguir, sob pena de distorção ou silenciamento inconveniente da descoberta. O caminho lógico para estudos de múltiplos casos de Yin (2005) descrito na figura 2.5 é: (1) desenvolver a teoria, (2) selecionar os casos e definir o protocolo de coleta de dados, (3) conduzir todos os estudos de caso, (4) escrever os relatórios de casos individuais, (5) extrair conclusões conjuntas, (6) modificar a teoria, (7) desenvolver implicações de ação de política organizacional e (8) escrever o relatório final de múltiplos casos.

Yin (2005) conclui o capítulo com três conselhos práticos. Quando houver escolha e recursos, designs múltiplos são preferíveis aos únicos, pois, segundo ele, mesmo dois casos oferecem possibilidade de replicação direta e amortecem as críticas de idiossincrasias (especificidades). O design, todavia, não pode ser uma camisa de força: revelações durante a coleta podem e devem levar a adaptações, desde que o pesquisador compreenda com precisão a natureza da alteração. Em outras palavras, mudar a seleção de casos é diferente de alterar proposições teóricas e objetivos. Contudo, ambas as mudanças exigem reconhecimento explícito. Por fim, o crescente interesse em designs de métodos mistos (mixed-methods) merece atenção: estudos de caso podem incorporar surveys ou outros métodos quantitativos como subunidades internas, ou, inversamente, funcionar como componente qualitativo dentro de um estudo maior de base quantitativa — o que amplia as possibilidades de responder a questões mais complexas do que qualquer método isolado permitiria.


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Eisenhardt (1989) e Yin (2005) rejeitam a lógica amostral e adotam a lógica de replicação. Ambos valorizam triangulação de fontes e reconhecem que o design pode ser adaptado durante a coleta. Os dois autores tratam o estudo de caso como algo na pesquisa qualitativa que cumpre papel análogo experimento na pesquisa quantitativa. De sua argumentação infere-se que entendem que casos não devem ser interpretados como inferiores aos experimentos. Sua maior similaridade é que ambos se encaixam claramente no paradigma pós-positivista (embora Eisenhardt autoclassifique suas ideias no positivismo, me parece mais adequado encaixá-la no pós-positivismo, pois ela busca mais falsificacionismo do que verificacionismo, ou seja, acompanha mais a Popper que a Comte).

Mas há diferenças entre eles: Eisenhardt parte do processo: descreve como a teoria emerge dos dados em movimento iterativo. Yin parte do design: preocupa-se com a arquitetura lógica antes de entrar no campo. Eisenhardt é mais indutiva e aceita maior abertura inicial. Yin exige proposições mais definidas desde o princípio. Ou seja, é possível argumentar que enquanto Eisenhardt apenas admite seu viés positivista, Yin o abraça sem constrangimento. Eisenhardt (1989) fala em saturação teórica como critério de encerramento enquanto Yin (2005) fala em replicação suficiente. São critérios contextualmente próximos, mas com ênfases distintas: um é emergente, o outro é previamente estruturado. Concluo, isso posto, que, embora ambos os autores tenham cosmovisão pós-positivista, mesmo entre eles o assunto da pesquisa qualitativa é um debate em aberto.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Uma questão de método

por Renato Paulo Nicácio Pedrosa


"Dialética [...], o processo de resolver ou fundir contradições em razão de atingir verdades superiores." www.etymonline.com ao resumir o pensamento hegeliano, traduzido.


Texto:

Yilmaz, K. (2013). Comparison of quantitative and qualitative research traditions: Epistemological, theoretical, and methodological differences. European Journal of Education, 48(2), 311-325.


O artigo de Yilmaz (2013) no European Journal of Education faz algo que julgo ser interessante e curioso: ele compila e resume em formato de artigo uma série de manuais de produção científica. Por um lado, isso é ótimo, pois serve de solução expressa para a construção metodológica. Mas, por outro, traz algumas armadilhas ligadas à profundidade do nexo entre objeto pesquisado e meio de pesquisa. Não caberá discutir tais pontos nesta breve resenha, mas destacá-los para investigações futuras. Cabe talvez apenas ressaltar algo intermediário que às vezes escapa ao estudante iniciante: a compreensão da importância do contexto do artigo. Ele não flutua por si só, mas compõe junto da revista um empreendimento de literatura científica com coesão de propósito. Uma revista de educação se preocupa em educar, em transmitir conhecimentos. Uma revista de filosofia da ciência se ocupa de compreender por completo, em fundamentar – tornar fundamental, elementar ou autoevidente. É uma diferença que pode parecer sutil, mas que é central na construção de um referencial e toca de alguma forma o nível da discussão sendo feita. Diferentes discussões podem ser igualmente válidas, mas sem servirem ao mesmo nível de empreitada de investigação.

Isso se torna crucial no que vem adiante, pois diferentemente do que o autor expõe, creio que a diferença crucial da pesquisa qualitativa e da quantitativa não é uma listagem de características paradigmáticas. Essa lista é a consequência e não a razão dos paradigmas. Justificar o paradigma pelas suas consequências me parece um tanto circular, embora pragmático e útil. Na minha forma de pensar, o que distingue a pesquisa qualitativa da quantitativa é que a primeira busca a prova por autoevidência, por clareza tão imediata (não rápida, mas sim sem meios intermediários) que não admite contraditório razoável (dialeticamente resolvida). Já a pesquisa quantitativa busca a prova por demonstração (por sucessão lógica de argumentos) que, dadas as premissas, leva a conclusões que são necessárias. Contudo, se questionadas as premissas, nenhuma conclusão é válida. Daí porque eu provoco ao debate insinuando que toda pesquisa quantitativa parte de uma investigação qualitativa anterior, seja ela explícita e admitida, ou implícita e consentida.

Yilmaz (2013) abre o artigo com uma implícita pergunta de ordem prática: como escolher a metodologia da pesquisa? Responde apontando para as duas grandes abordagens possíveis: por métodos quantitativos ou por métodos qualitativos. Ou seja, age de forma indutiva, parte de um caso particular tão comum a qualquer pesquisador. A esse desamparo inicial, seu trabalho vem ao resgate ancorando-se no tripé epistemológico (estudo do saber), teorético (estudo da teoria) e metodológico (estudo do método).

Em seguida, parte para uma rápida definição (problematizada no prólogo deste texto). Os métodos quantitativos seriam aqueles baseados em ordens expressáveis e demonstráveis em linguagem matemática. Já os métodos qualitativos seriam... complicados. Seriam por definição não quantitativos, mas também não singulares, mas multifacetados e multiparadigmáticos. Porque os métodos qualitativos seriam emergentes, indutivos, interpretativos e descritivos para estudar outra lista de fenômenos que por distintivo possuem o fato de serem diretamente ligados a questões humanas. O autor ilustra essa multiplicidade exemplificando com uma lista de abordagens qualitativas que vão da história oral à teoria fundamentada (grounded theory). Explica que a pesquisa quantitativa parte de uma posição epistêmica objetiva (da primazia do objeto independente sobre o sujeito cognoscente) e estável (governado por leis precisamente mensuráveis) e a pesquisa qualitativa parte de uma posição epistêmica construtivista (o significado construído pelo sujeito cognoscente é a realidade) e socialmente influenciada ou determinada (a decisão semântica não é autônoma, mas culturalmente costurada e condicionada).

O autor aponta que a solução para a escolha entre as duas abordagens maiores (qualitativa ou quantitativa) vem da resposta a algumas perguntas-chave. A) O design do trabalho se encaixa em qual tradição paradigmática (em qual visão de mundo)? B) Quem ou o quê será estudado? C) Quais estratégias de investigação serão empregadas? D) Quais métodos e ferramentas serão utilizados para coletar e analisar os dados? Ou seja, informa que (a) há uma continuidade comunitária-institucional na produção de pesquisas, (b) que a recomendação da abordagem responde a limites e potencialidades do objeto de pesquisa, (c e d) e que a forma concreta de pesquisar está ligada a possibilidades concretas do contexto, e, portanto, determina a escolha da abordagem principal e não é apenas determinada por ela.

No texto resenhado, observa-se que os métodos quantitativos buscam isolar objeto e pesquisador (que poderia contaminar o objeto alheio a si) por meio de uma série de técnicas como instrumentos padronizados pré-construídos, categorias de resposta pré-determinada, amostragem generalizável (aleatória e representativa). Nesse método o que se encontram são quase-leis (que têm como ideal relações de causa e efeito) que já estariam lá antes da intervenção de um ator pensante com graus de liberdade. Por sua vez, os métodos qualitativos buscam a integração de processos, contextos, interpretações, significados e compreensão por meio de raciocínio indutivo. O fenômeno é percebido como mutante uma vez que o pesquisador faz parte e modifica o contexto que já estaria em constante mutação por atores intrínsecos com capacidade similar ao do pesquisador. Por isso, busca-se profundidade, respostas abertas, citações diretas dos participantes e construção compartilhada de significado. Na explicitação de resultados, o método quantitativo frequentemente entrega fórmulas lógico-matemáticas enquanto o método qualitativo responde com refinamentos explicativos por meio de descrições mais fiéis, definições mais claras e interpretações mais verossimilhantes. Cabe questionar a identificação de métodos qualitativos com o pensamento indutivo, havendo muitos trabalhos abdutivos e até alguns dedutivos.

Enquanto paradigmas, segundo Yilmaz (2013), a pesquisa quantitativa bebe de fontes determinísticas, enquanto a pesquisa qualitativa dança com fontes relativistas. O autor observa uma diferença temporal com os métodos qualitativos sendo mais recentes. Ele demonstra isso relacionando com as perspectivas pós-positivistas, pós-estruturalistas, construtivistas e críticas que são relativamente recentes em relação implícita com as ciências naturais. Mas isso me parece ser intra-paradigmático. Essa classificação necessita de uma separação clara (positivista) entre ciência e pré-ciência para sobreviver. Vista de forma integrativa, ambas as abordagens coexistem de forma histórica, sendo possível exemplificar com elementos da antiguidade clássica, como Aristóteles e Pitágoras.

O autor percebe e lista que as grandes abordagens envolvem diferenças ontológicas (o que é a realidade?), epistemológicas (como se sabe?), axiológicas (quais são os valores – os consensos iniciais – que orientam a pesquisa?), retóricas (em qual discurso se encaixa a pesquisa?), e metodológicas (qual é o processo real aplicado na pesquisa?). Hei de notar algo que referencia à minha crítica original: questões ontológicas, epistemológicas, axiológicas, retóricas e metodológicas não são questões resolvíveis por métodos quantitativos isoladamente, mas que podem ser resolvidas por métodos qualitativos isoladamente. De tal forma que uso essa constatação como evidência da provocação original de que toda pesquisa quantitativa tem por base uma investigação qualitativa.

Desse ponto o autor parte para os critérios de julgamento das pesquisas em suas abordagens. Discute confiabilidade (uma verdade deve permanecer verdade se os seus condicionantes permanecem) e validade (a precisão da engenharia que conecta condicionantes e conclusões) e constata que ambas são construídas para a pesquisa quantitativa. Na elaboração que segue processa várias fontes e adere à visão de Lincoln and Guba (1985), resumindo o julgamento da pesquisa em quatro critérios intercambiáveis entre pesquisa qualitativa e quantitativa. O primeiro critério é o valor como verdade que se apresenta na pesquisa quantitativa como validade interna (atributos de relações de causa e efeito) e na pesquisa qualitativa como credibilidade (melhor explicação disponível definida por consenso). O segundo é a aplicabilidade expressa por validade externa (capacidade de ser generalizada) na pesquisa quantitativa e "transferabilidade" que é a capacidade das conclusões para serem úteis e elucidativas, ainda que parcialmente, em outros contextos. O terceiro critério é a consistência: confiabilidade na pesquisa quantitativa e a capacidade de corresponder ao que dela se espera (dependability) no caso da pesquisa qualitativa. Por fim, o último critério é a neutralidade que é encontrada por meio da objetividade no caso da pesquisa quantitativa e da confirmabilidade (o não abuso e a não distorção da capacidade de interpretar) no caso da pesquisa qualitativa. Mas o autor reconhece que esses critérios não são universalizados e dependem da raiz teleológica (estudo da finalidade) da abordagem de pesquisa qualitativa aplicada.

Yilmaz (2013) conclui de forma utilitária e conciliatória apontando uma nova perspectiva em que cada abordagem (quantitativa e qualitativa) tem suas forças e fraquezas. Apresenta que elas devem ser escolhidas de forma estratégica para responder a vários fatores, como o plano de pesquisa, as questões a serem respondidas e ao contexto do pesquisador e da audiência.

O texto contribui para o entendimento utilitário e racionaliza a seleção de abordagem na pesquisa. Há pontos discutíveis e problematizáveis. Mas o texto é sem dúvida um excelente ponto de partida para a compreensão, discussão, defesa e utilização dos métodos qualitativos vis-à-vis os métodos quantitativos.

terça-feira, 10 de março de 2026

Educar é Administrar


Por Renato Pedrosa


Se diz por aí que Administrar é planejar, organizar, executar e controlar. Pelo menos é isso que dizia o doutor Maximiano em seu belíssimo livro de Introdução à Administração de capa preta como o céu noturno e letras claras como as estrelas a brilhar. Aquele livro iluminou os meus inocentes primeiros dias na ciência do Barão Mauá (o maior de todos), Dom João II (não o Pedro, mas o João mesmo), JK e Matarazzo. (O quê?! Você esperava que eu falasse Taylor, Fayol e Ford?!)

Contudo, cá estou eu catapultado no tempo vivendo uma perigosa vida de Guimarães Rosa nas gerais enquanto desvio das pedras não jogadas por Drummond e sorvendo as batatas dos vencedores do machadiano Quincas Borba. Herdeiro de Policarpo (O Quaresma) sigo cercado de livros e sem ser doutor (pelo menos não ainda), com a apaixonada energia da Senhora de José de Alencar e o vigor de Ulisses em odisseia. E cá, relendo minha caminhada, percebo que é um tanto quanto romantizada a visão passada sobre o que é administração. Ela me soa agora como uma má tradução de um inglês americano com forte sotaque.


Administrar para mim, enfim, é escolher, negociar e garantir a execução.


Mas observe as dúvidas. Como escolher? Para quê negociar? E como garantir a execução? A verdade vos digo, pode-se planejar ou improvisar, organizar ou seguir uma súbita e caótica inspiração, pode-se executar ou adquirir e pode-se controlar ou simplesmente confiar em relações de confiança (especialmente naquelas de longo prazo).

Mas sempre, sempre e sempre é necessário ensinar. Ensinar a si para bem escolher, aprender com os dados e fatos de Pitágoras, e também com a moda e com os desejos mais subjetivos e dissimulados como Capitu. Afinal, quem precisa de cavalos mais velozes quando se pode ter um automóvel, não é mesmo? E a beleza? Ah... a beleza que transforma um MP3 Player de R$ 20 encalhado na prateleira em um encantado iPod de R$1.799 por R$1.699 com fila de espera no lançamento. Isso para não falar na capacidade de chegar ao espaço, a fronteira final, com a SpaceX, sonho de qualquer menino em qualquer idade e de qualquer tipo.

Um administrador é alguém que sabe ensinar a si, mudar de ideia, testar, inspirar e inspirar-se. Enfim, é alguém que aprende. O faz sobretudo para saber bem escolher. Não basta, é claro, esta graduação. É necessária a maestria de saber escolher, tanto em tempo bom, com um mapa bem desenhado sobre uma mesa de maneira sólida, quanto inconfessavelmente trêmulo e atacado pelas violentas flamulas de um incêndio descontrolado. Também é desejável o doutoramento de saber quando se deve escolher e quando se deve delegar a escolha, quando se deve responder de pronto e quando se deve procrastinar: deixar em banho maria uma matéria até que o tempo se encarregue de resolvê-la.

Definida a escolha (visão, missão, objetivo, meta, etc. como no jargão) é necessário engajar os detentores naturais dos recursos para dispô-los a combiná-los. Do amalgama de forças e estruturas vem a potência vetorial capaz de quebrar a inércia do estado atual movendo a situação em direção ao estado desejado. Esta etapa é a negociação. É nela que como em uma tese acadêmica se expressa (se ensina) a justificativa, a relevância e a contribuição (a DRE projetada dos ganhos) de uma iniciativa (de um empreendimento), e, por fim, se institui uma organização (uma entidade coordenada para atingir uma determinada finalidade).

Logo resta a etapa de garantir a execução. É preciso ensinar e aprender a harmonia, o timbre, a cadência e o ritmo da aplicação dos recursos. Torna-se cinética o que era potencial. Seguindo a intuição de Nelson Rodrigues, aprenderemos no dia-a-dia do chão de fábrica que toda unanimidade é burra. Diferentes visões agregam notas à melodia de base que vai se transformando do resultado idealizado no produto concreto.

Todo o processo de administrar envolve um ciclo retroalimentado ("feedbackado") de ensino e aprendizado em busca do objetivo (escolhido, negociado e realizado). Mas, se tal é o desfecho; quem ensina e forma tais trabalhadores do conhecimento – como chamaria Peter Drucker em Desafios Gerenciais no Século XXI? Se, como falamos, os administradores são eternos e "revolventes" alunos e professores em sua atividade cotidiana; como os preparar?

Antes de resolvermos os desafios de Drucker, temos que nos dedicar aos atemporais desafios do ensino da e na administração. Problemas temos de monte. Há quem perceba fábricas de administradores soltando fuligem cinza no desejado céu azul dos pretendentes à profissão. Uma grande professora já observou que "uma realidade estilhaçada - em que ensino, pesquisa e extensão não formam o desejado fio condutor de uma ciência reflexiva" - é um perigo.

E o docente? Hoje ele é muitas vezes um professor bombril que se dobra e desdobra em 1.001 utilidades através de dias longos e anos curtos para atender as diferentes expectativas: de aluno no Strictu Sensu a maestro da graduação. Conhecimento medido por quantidade e na velocidade de um fast food. Tudo isso enquanto o essencial é invisível aos olhos como descobriu o Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry. Por isso temos que nos perguntar: chegarão ao fim as escolas de negócios? Até em Stanford se percebe que um padrão Made in U.S.A. não pode ser tamanho único para o mundo inteiro. Muitas vezes o que se vê é pequena profundidade e grandes lucros. Delas surgem muitas vezes ideias sem fundação que contaminam organizações que, por sua vez, continuam sem a capacidade de alçar-se do terceiro mundo. Uma tristeza. Com tanto vazio no saco plástico-metalizado de "chips" acadêmico, não é difícil de entender a desconexão entre universidade e sociedade. Para mim, bom mesmo é nutrir-se com a raiz forte dos clássicos temperada com o costume local vivido em cada local.

Mas, se tem clássico, tem teoria. Não é, José Maria? Liberal ou autoritário? Depende do paradigma. Vai de tradicional ou naturalista? O problema é o abuso, mas qual é qual? "Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo." É assim neste Grande Sertão. Cognitivismo ou construtivismo? A realidade descoberta ou modelada? Para mim, a melhor é a miscigenada. De cada canto o seu triunfo e cada um do seu melhor jeito. Tudo junto e misturado. A gente chama Piaget e autores brasileiros, e deixa eles ouvindo cantiga de roda e sambando no terreiro. Por aqui Marx pode até chutar a gol, mas Adam Smith é o goleiro. Empiristas e racionalistas se encontram no bar e sentados na mesa gritam truco, seis, doze. E voltam a se reencontrar na noite seguinte na Taverna do Amaral. A vida é o maior objetivo, já diria o Dr. Jonathan a teorizar.

Muitos falam sobre educação, mas ela continua envolta em mistério. A Dra. Marisa Bittar nos mostra as idas e vindas da história da educação, sempre atenta a questões críticas. Paulo Freire contribui com a Pedagogia do Oprimido e da Autonomia. O Dr. Ruy Nunes interpreta esta história da educação com a busca da verdade para elevar a vida. O Dr. Alfred Whitehead a vê como uma busca de autodesenvolvimento em estágios e funções complementares. Na sociologia da educação o debate é enorme. Fenômeno natural da sociedade, aparentemente não houve sociólogo que não quis colocar sua perspectiva pessoal. Max Weber gostava de separar educação de pedagogia, pois acreditava que a primeira era um aspecto natural e a outra um avanço na ciência para potencializá-la. Na filosofia a coisa não é diferente, desde os pré-socráticos (que eram professores) até popstars da contemporaneidade como Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal e Cloves de Barros Filho; todos sempre discursaram sobre educação. Disseram em uníssono ser característica de pessoas livres, capazes e autônomas, mas as receitas variaram. A frase "se você acha a educação cara, espere até ver o quanto custa a ignorância" eternizou-se na sabedoria popular com disputada autoria que é geralmente atribuída a um ex-reitor de Harvard. Do oriente, Confúcio diria que se você tem meta para 100 anos, deve educar uma pessoa. Poucas palavras são tão frequentes no jargão do administrador quanto meta.

De Frankfurt a São Paulo em ponte aérea sem escalas, o patrono da educação se tornou polêmico. Mas não é questão de formar times e se rivalizar. Há quem duvide que devemos refletir e até mesmo criticar quando necessário? Há quem duvide da baixa qualidade da nossa educação? A solução, penso, é dar as mãos e trabalhar. Antes de educar, educar-se. Olha aí de novo o professor-aluno! Até mesmo Freire falou da dialética do aprendizado. Ou eu estou mentindo? Se o objetivo é a elevação, há sim quem venda gato por lebre. Sem a literatura não há o que contar e sem as contas nada para de pé. Não há razão de se rivalizar as humanas e as exatas. Ninguém chega à lua sem calcular a trajetória, mas tal epopeia nem é cogitada sem o canto e o encanto das histórias e dos sonhos de pioneiros. Além do mais, você pensa que se faz qualquer uma destas coisas sem administrar? Escolher, negociar e garantir a execução. E tenho dito! E como meio deve-se ensinar. Ensinar a si e ao próximo.

E o método para ensinar? Como se faz?

Para ensinar a matemática da contabilidade de ganhos e a teoria das restrições se usa a literatura de A Meta, não é Goldratt? Para vislumbrar, ainda que de relance, a discussão da administração; ajuda obter a geometria dos tipos ideais do Henry Mintzberg e os capítulos sequenciais de seu Safari. A retórica da negociação precisa se sustentar com os dois pés bem firmes da Vantagem Estratégica. E, para demonstrá-la, mais figuras geométricas e esquemas que atuam como se estivessem a provar um teorema. Para falar de marketing: design thinking e seus descendentes como o Value Proposition Model que monta em persona concreta um punhado de estatísticas inanimadas. E, para falar de medos e perigos, é importante empregar a estatística da Teoria Moderna do Portfólio de Markowitz. Entendeu o meu ponto? Para o concreto ensinar, você precisa romantizar. Já para a arte empregar, é preciso somar e tangibilizar!

É tudo sobre bem alocar recursos escassos. E alguns são mais escassos que os outros. Sabe qual é a diferença entre perder dinheiro e perder tempo? É que o primeiro você pode recuperar. Os anos passam e o que resta é pouco, professor Bombril, mesmo que você tenha glória e fama. Seja você um realizador vigoroso de sonhos ou esteja apenas na esperança de dias melhores, é preciso aproveitar a excitação de vida que ainda temos. Para bem aproveitá-la, é preciso escolher bem (administrar!). Para fazê-lo é preciso saber. Para isto é preciso aprender. Se eu me repito esta lição é porque esta é uma das técnicas de aprendizagem. Há outras? Várias. Mas sempre no mesmo fundamento. Se aprende pela persistência e pelo interesse. Beba água para se hidratar, durma bem, respeite seus limites, faça a leitura prévia e acredite em suas capacidades. Depois transforme o conhecimento nas mais variadas formas que puder. Se ouviu algo importante, desenhe; se o leu, construa um esquema; se o viu, explique para outra pessoa usando apenas palavras. Use todos os seus sentidos e engaje-se no processo de ensino e aprendizagem. Seja curioso e divirta-se no processo! De Skinner a Maslow a mensagem é a mesma. Temos necessidades e buscamos algo. Se queremos Y e ele é função de X, buscaremos a X naturalmente. Seja pela vertente mais crítica ou pela mais clássica, pela motivação ou pela liderança: aprender é uma necessidade e um desejo. Então encontre o equilíbrio entre oferta e demanda. Faça sim seus contratos psicológicos, mas procure relações ganha-ganha e de longo prazo.

Enquanto vivermos iremos aprender, ou seja, seremos de alguma forma alunos. E é um prazer para aquele que sabe transbordar-se em ensinamentos para os outros. É claro que o aluno de hoje amanhã será o professor. Logo, honre os mais velhos. Saiba que estamos sempre sobre os ombros de gigantes. Nos ajudamos entre gerações em uma longa e admirável construção do que é a história humana.


Para finalizar, deixo uma reflexão. Se Lima Barreto nos contou sobre o homem que, por se dispor a aprender e ensinar uma língua estranha, se tornou diplomata, quem sabe as oportunidades que te esperam nesta jornada de aprendizado e ensino que é a derradeira natureza da administração?

CDB

O caso dos Certificados de Depósito:

origens e fins


Por Renato Paulo Nicácio Pedrosa


Resumo

Apresenta-se uma visão sobre a entrada de recursos em um banco focando no caso dos Certificados de Depósito (CD). Apresenta o histórico do desenvolvimento dos instrumentos de captação até a chegada dos CD. Insere a participação Brasileira no desenvolvimento dos instrumentos até a chegada do CDB. Mostra a importância dos depósitos a prazo e dos CD em alguns países ou blocos do mundo relacionando-os com os respectivos PIB. No caso do Brasil, analisa os dados disponíveis por grupos de instituições financeiras e a totalidade do mercado financeiro nacional da forma como os bancos de dados disponíveis permitem. Em seguida demonstra a participação dos depósitos a prazo e dos CDB nos mercados e bancos. Para concluir, após apresentar o cenário mais amplo e discuti-lo em várias dimensões, mergulha na especificidade da utilização do CDB, indo da perspectiva do investidor (aplicador) até o ponto de vista de uma instituição financeira.

Palavras-Chave: Certificado de Depósito Bancário, Depósito a Prazo, FTP, Captação, Banco.


Introdução


As instituições financeiras de tipo bancário sempre atraíram o fascínio, a ira e a admiração das pessoas. Foram fontes de grandes crises e são motores do desenvolvimento onde quer que se encontrem. Seu surgimento é controverso, pois depende do escopo que lhes atribui. Contudo, se consideramos suas funções básicas de guarda, transferência e empréstimo de valores, os indícios apontam que os bancos surgiram junto às primeiras cidades antigas.

Com toda essa história e com a sua importância contemporânea, era de se esperar que estas instituições fossem amplamente compreendidas em todo o seu funcionamento. Porém, não é esta a realidade. Os bancos continuam enigmáticos para grande parte do público e mesmo para alguns daqueles que se dedicam ao conhecimento. Como nas antigas corporações, parte do ofício lembra um segredo até então reservado para quem transforma os conceitos bancários em negócios concretos fechados diariamente.

Desvendar as instituições financeiras para um público mais amplo e instigar sua investigação científica é importante para que mais atores possam ingressar neste mercado e para que estas organizações possam se aperfeiçoar. Todavia, é impossível desanuviar de uma só vez toda a natureza dos bancos dado a multiplicidade de tipos, atuações, interesses e temas com os quais eles estão envoltos. Mais prudente é analisá-los parte-a-parte até que o todo possa ser compreendido.

Neste artigo focaremos em um pequeno aspecto. O faremos na esperança de que ele abra oportunidades para ramificações futuras. Assim, esperamos que, camada após camada, fique iluminado o funcionamento das instituições financeiras. O primeiro passo então é investigar as captações. Entender como o dinheiro entra ajuda a começar a explicar toda a dinâmica financeira envolvida. No entanto, mesmo aí há uma grande variedade de formas. Concentraremos nos Certificados de Depósito (CD) nesta busca de explicações, mas não sem motivo. Dos tipos modernos de captações bancárias, os CD são os instrumentos mais conhecidos, usados e estáveis. Também são amplamente difundidos, pois mesmo instituições que não podem captar depósitos à vista, podem emitir estes certificados para capitalizar-se. Para que estes instrumentos façam sentido no contexto das instituições financeiras, é preciso compreendermos a história que levou até eles. Em seguida, examinaremos suas características com foco no caso brasileiro em contraste com o cenário internacional, sempre que esta análise couber. Por fim, compreenderemos a sua dinâmica até sua entrada no banco quando mutações internas digerirão o instrumento e fornecerão à criatura bancária fundos que nutrirão as suas aplicações por meio do mecanismo de precificação de transferência de fundos (FTP – Fund Transfer Pricing). Neste ponto estará completo o escopo do trabalho, a partir do qual novas pesquisas poderão retomar o processo de investigação.


Histórico e Presente das Captações Bancárias até o Certificado de Depósito Bancário Brasileiro


Muitos foram os mecanismos utilizados para captação financeira via emissão de títulos de crédito representativos de depósitos durante a história. Medina (apud Perera, 2013, p. 26-7) aponta indícios do aparecimento de Letras de Câmbio no Egito Antigo e na Grécia Clássica. Estas serviam como meio de transação segura, sem o transporte de moedas e já com operações financeiras desenvolvidas, como a prática de desconto de títulos. Essa utilização continuou com algumas inovações até o século XVIII (De Roover, 1953).

No Brasil, indícios de atividade bancária arcaica podem ser observados no século XVII capitalizada principalmente com moedas metálicas (Caldeira, 2006). Mas foi só no século XIX junto com o restante da América Latina que o mercado financeiro se organizou formalmente, houve a expansão do crédito (Cortes; Marcondes, 2018, p.198-9) e houve a ampliação da atividade financeira (Carvalho, 2014, p.83-6).

Na monarquia e na república, por duas vezes e de forma controversa; a emissão de papel-moeda (notas bancárias ao portador) foi opção oficial de captação bancária (Cortes; Marcondes, 2018, p.203-4). Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (2011, p. 286-7) sobre o tema revelou em 1878:


A deficiência manifesta dos metais preciosos na proporção necessária para acompanhar as operações de exchange, ou troca de valores, na vasta escala que a civilização fez aparecer, trouxe a criação de novos agentes ou expedientes destinados a servir de instrumentos suplementares para conseguir fim tão útil.

Um desses instrumentos foi o papel de banco, sem dúvida a melhor combinação que podia ocorrer ao espírito humano, para pôr ao serviço da transmissão de valores um agente poderoso, que reúne imensas vantagens, sendo a principal a elasticidade local que o novo motor prometia, desideratum até então não satisfeito.

[...]

Ao uso dos bilhetes de banco seguiu-se o abuso: coibir este por meio de leis restritivas e garantidoras, era a missão dos estadistas.


A disputa não se tratava apenas dos instrumentos, mas de realmente inviabilizar algumas instituições. Veja o que discursou o Barão de Itaboraí (apud Carvalho, 2014, p.87), chefe de governo e especialista em finanças, em 1853 ao justificar a fusão do Banco do Brasil e do Banco Comercial do Rio de Janeiro:


A concorrência entre os bancos, senhores, tem sido a causa principal de quase todas as crises comerciais. É a porfia em que cada um luta para fazer mais negócios, aliciar mais fregueses, por dar mais dividendos a seus acionistas que ordinário ocasiona a facilidade de se descontarem títulos sem as necessárias garantias; que faz baixar demasiadamente os juros; que excita empresas aleatórias, que faz desaparecer do mercado os capitais disponíveis, reais [metais preciosos e títulos conversíveis], para os substituir por capitais fictícios ou de imaginação[...]


Ao que Mauá (2011, p. 284-5) possuía a contra-argumentação:


[...] não se segue que essas condições superlativas de um ótimo meio circulante [moeda e bilhetes de banco conversíveis], não possam ser substituídas, com vantagem, com grande vantagem mesmo, pelo papel não convertível temporariamente de bancos de inteiro crédito [...] que [...] se vejam compelidos a conservar em sua carteira, em vez de ouro, títulos particulares de bom crédito e do Estado, representando suas notas em circulação.


A Letra de Câmbio e a Letra Hipotecária continuaram por algum tempo como instrumentos de captação possíveis conforme se nota na legislação entre 1850 e 1908. Não sendo necessariamente instrumentos especializados em captação bancária e se modelando melhor aos valores absolutos, as antigas letras não se ajustavam bem às curvas de juros. Entre estas, há pior adequação às taxas de juros compostas e flutuantes tão comuns ao mercado financeiro contemporâneo.

Os Certificados de Depósito (Certificates of Deposit - CD) surgiram nos Estados Unidos em 1961 por meio do First National City Bank, atual Citibank (Leary, 2009, p. 1147; Ruebling apud Liu, 2018, p. 96; Rose; Hudgins, 2013, p. 438). Cleverland e Huertas (apud Leary, 2009, p. 1147, tradução nossa) mencionaram em sua história do Citibank que "os Certificados de Depósito resolveriam o problema de levantamento de fundos e, portanto, abririam caminho para um crescimento acelerado". Estes instrumentos de captação bancária para os depósitos a prazo (time deposits) foram capazes de causar uma mudança nas aplicações de caixa corporativo e permitir a ampliação da base de investidores dos bancos (Leary, 2009, p.1144 e 1147). Os CD permitem que o investidor receba sobre os valores depositados juros pré ou pós-fixados (Casu et al., 2015, p. 264; Rose; Hudgins, 2013, p. 438-41).

Os Certificados de Depósito Bancário (CDB) surgiram na legislação brasileira em 1965 e suas características foram redefinidas em 2020. Muitas das palavras da nova legislação trataram de normatizar o que já era uma prática do mercado, por exemplo, o fato dos CDB serem títulos executivos extrajudiciais. Suas características atuais serão melhor exploradas adiante.

Os CDB podem ser registrados em sistemas terceiros de registro e de liquidação financeira ou por meio do lançamento em sistema eletrônico do emissor. Em 1974 a ANBIMA, o Banco Central do Brasil e a empresa de tecnologia Unisys firmaram convênio para construir um sistema de processamento eletrônico e transferência de títulos eletrônicos. Este sistema se tornaria o Serviço Especial de Liquidação e Custódia (SELIC). Em meados de 1980, a ANDIMA dedicou-se montar um sistema que recebeu o nome de Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos Privados (CETIP) (Carvalho, 2014, p.213). Em 1986 os CDB passaram a poder ser registrados na CETIP. Em 2017 a B3 passa a fazer os registros - sendo o fruto da fusão entre a CETIP e a BM&FBOVESPA. A partir de 2015 todos os CDB com valor igual ou superior a R$ 5 mil precisam ser registrados em sistemas terceiros.

No Brasil, até a data deste artigo, encontram-se no rol de opções especializadas da captação bancária brasileira a prazo o Certificado de Depósito Bancário (CDB) de 1965, o Depósito Interfinanceiro (DI) de 1986 (chamado à época de sua origem de CDI – Certificado de Depósito Interbancário), a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), ambos de 2004, o Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE) de 2009, a Letra Financeira (LF) e o Certificado de Operações Estruturadas (COE), ambos de 2010. Contudo, o CDB continua sendo o mais conhecido, livre e popular instrumento de captação.

Nos Estados Unidos, em 1933, foi estabelecida a Empresa Federal de Seguros de Depósito (FDIC - Federal Deposit Insurance Corporation) após uma forte crise bancária. O FDIC viria também a proteger os futuros CD (FDIC, 1984). Atualmente a condição padrão do FDIC cobre USD 250 mil por depositante, por instituição financeira e por cada categoria de ativo. No Brasil, em 1995, foi estabelecido o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já cobrindo os CDB. No presente, a condição padrão do FGC é de cobertura de BRL 250 mil por depositante, instituição financeira e cada categoria de ativo com o teto de BRL 1 milhão por depositante (CPF ou CNPJ) a cada período de 4 anos.

Na China os Certificados de Depósito (CD) começaram a ser emitidos em 2013 e o mercado cresceu intensamente desde então. Contudo, a compra dos CD ainda não é permitida para investidores individuais, sendo reservada para o mercado interfinanceiro (Liu, 2018). Desta forma, na atualidade, os CD chineses têm mais similaridades com os Depósitos Interfinanceiro (DI) brasileiro do que com os CDB.

No Brasil de 2021 o "[...] Certificado de Depósito Bancário (CDB) é título de crédito nominativo, transferível e de livre negociação, representativo de promessa de pagamento, em data futura, do valor depositado junto ao emissor, acrescido da remuneração convencionada". Ele é emitido por instituições financeiras autorizadas a captar a prazo e pode ser remunerado por juros fixos ou flutuantes e simples ou capitalizados, ou outras formas de remuneração. O título é emitido escrituralmente por meio do lançamento no sistema eletrônico da instituição emissora ou registro em sistemas terceiros de registro central. A regulamentação mais detalhada do tema fica por conta do (CMN) Conselho Monetário Nacional (BRASIL, 2020; lei nº 13.986/2020, capítulo IV).


Representatividade Internacionalmente Comparada


Os Certificados de Depósito Bancário são poderosos mecanismos de captação bancária. Rose e Hudgins (2013, p. 439) apontam que os Grandes Certificados de Depósito nos Estados Unidos saíram de zero na década de 1960 e atingiram uma cifra próxima de 2 trilhões de dólares (USD) em 2011. Neste ano o PIB do país era de 15,543 trilhões de dólares (USD – correntes, de acordo com a base de dados do Banco Mundial). Logo, os CD teriam sido proporcionais a 12,87% do PIB americano. Para obtermos resultados financeiros mais rigorosos, faremos nossa própria análise comparada dos CD nos Estados Unidos, dos títulos de débito na Europa e dos depósitos a prazo e CDB no Brasil utilizando as bases de dados locais. Os valores dos países não vêm de procedimentos de coleta padronizados e, portanto, seus dados não podem ser computados entre si. Mas suas magnitudes e significados (construtos teóricos) podem sim servir de bases de comparação sobre a proporção do fenômeno dos certificados de depósito em relação às economias próprias locais.


União Europeia: Títulos de Crédito Emitidos x Produto Interno Bruto (PIB)


No ano seguinte ao estouro da Crise do Subprime (2009) o peso dos títulos de débito (incluindo CD) na União Europeia chegou a representar um volume equivalente a 85,1% do PIB do bloco econômico. Depois disso entraram em trajetória de queda tendo alcançado 37,3% do PIB. Selecionamos uma pequena amostra para analisarmos mais de perto. Essa tendência de queda foi observada na Alemanha, no Reino Unido, na Itália e em Portugal. Exceção da França onde o volume continuou constante durante todo o período.

Em 2020 os títulos de débito emitidos pelos bancos em relação ao PIB dos respectivos países alcançaram 7,2% em Portugal, 19,0% na Itália, 58,8% na França e 20,4% na Alemanha. Já para o Reino Unido o último dado disponível nesta base de dados comparada é de 2019 em que o valor dos títulos de débito emitidos alcançou 37,5%.

Em todos os casos os títulos de captação exibiram-se como possuindo magnitude relevante nas economias de todos os seus respectivos países na União Europeia.


Tabela 1: União Europeia: Títulos de Crédito Emitidos x PIB

Ano Títulos de Débito Emitidos PIB %
2018 5.703.224 15.940.704 35,8%
2019 5.604.177 16.510.082 33,9%
2020 4.978.490 13.348.749 37,3%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: European Central Bank e Eurostat. Valores em milhões de euros a preços correntes.


Tabela 2: Portugal: Títulos de Crédito Emitidos x PIB

Ano Títulos de Débito Emitidos PIB %
2018 16.100 205.184 7,8%
2019 15.999 213.949 7,5%
2020 14.637 202.441 7,2%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: European Central Bank e Eurostat. Valores em milhões de euros a preços correntes.


Tabela 3: Itália: Títulos de Crédito Emitidos x PIB

Ano Títulos de Débito Emitidos PIB %
2018 301.422 1.771.566 17,0%
2019 335.273 1.790.942 18,7%
2020 313.631 1.651.595 19,0%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: European Central Bank e Eurostat. Valores em milhões de euros a preços correntes.


Tabela 4: Reino Unido: Títulos de Crédito Emitidos x PIB

Ano Títulos de Débito Emitidos PIB %
2018 814.456 2.420.897 33,6%
2019 947.312 2.526.615 37,5%
2020 - - -

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: European Central Bank e Eurostat. Valores em milhões de euros a preços correntes.


Tabela 5: França: Títulos de Crédito Emitidos x PIB

Ano Títulos de Débito Emitidos PIB %
2018 1.317.899 2.363.306 55,8%
2019 1.423.675 2.437.635 58,4%
2020 1.354.948 2.302.860 58,8%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: European Central Bank e Eurostat. Valores em milhões de euros a preços correntes.


Tabela 6: Alemanha: Títulos de Crédito Emitidos x PIB

Ano Títulos de Débito Emitidos PIB %
2018 868.740 3.367.860 25,8%
2019 701.753 3.473.350 20,2%
2020 686.916 3.367.560 20,4%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: European Central Bank e Eurostat. Valores em milhões de euros a preços correntes.


Estados Unidos: Grandes Certificados de Depósito x Produto Interno Bruto (PIB)


Como apresentamos, Rose e Hudgins (2013, p. 439) apontam que os Grandes Certificados de Depósito nos Estados Unidos saíram de zero na década de 1960 e atingiram uma cifra próxima de 2 trilhões de dólares (USD) em 2011. Construímos nossa própria base de comparação travando como valores de referência os saldos em dezembro de cada ano para os Grandes Depósitos a Prazo. Com esta nova metodologia, o valor de 2011 de Grandes Depósitos a Prazo (usualmente CD) foi de aproximadamente USD 1,5 trilhão de dólares (9,6% do PIB).


Tabela 7: Estados Unidos: Grandes Certificados de Depósito x PIB

Ano Grandes Depósitos a Prazo PIB %
2009 1.889.431 14.478.100 13,1%
2010 1.724.070 15.049.000 11,5%
2011 1.494.450 15.599.700 9,6%
2012 1.521.686 16.254.000 9,4%
2013 1.602.654 16.843.200 9,5%
2014 1.705.311 17.550.700 9,7%
2015 1.664.023 18.206.000 9,1%
2016 1.513.139 18.695.100 8,1%
2017 1.609.162 19.479.600 8,3%
2018 1.696.345 20.527.200 8,3%
2019 1.864.925 21.372.600 8,7%
2020 1.528.883 20.893.700 7,3%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: Conselho Diretor do FED e Bureau of Economic Analysis. Valores em milhões de dólares a preços correntes.

Observamos que desde 2009 (ano seguinte ao estouro da Crise do Subprime) a proporção dos Grandes Depósitos a Prazo em relação ao PIB dos Estados Unidos caiu pela metade. Em 2020 estes depósitos alcançaram 7,3% sendo representativos do ponto de vista econômico. Os Pequenos Depósitos a Prazo são geralmente contabilizados juntamente com as contas de poupança e, por esta razão, não foram considerados significativos para este estudo.


Brasil: CDB/RDB x Depósitos a Prazo x Produto Interno Bruto (PIB)


Os depósitos a prazo no Brasil retomaram crescimento proporcional desde 2016. Em 2020 alcançaram quase BRL 2,3 trilhões se tornando equivalentes a 30,3% do PIB conforme tabela abaixo.


Tabela 8: Brasil: Depósitos a Prazo x PIB

Ano Depósito a Prazo PIB %
2009 703.485 3.333.039 21,1%
2010 786.360 3.885.847 20,2%
2011 943.662 4.376.382 21,6%
2012 899.218 4.814.760 18,7%
2013 897.216 5.331.619 16,8%
2014 900.737 5.778.953 15,6%
2015 933.738 5.995.787 15,6%
2016 1.048.104 6.269.328 16,7%
2017 1.179.457 6.585.479 17,9%
2018 1.423.219 7.004.141 20,3%
2019 1.551.074 7.407.024 20,9%
2020 2.260.218 7.447.858 30,3%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData e SIDRA/IBGE. Valores em milhões de reais a preços correntes.

Dentro dos depósitos a prazo, a predominância é de CDB/RDB que, na série analisada, sempre constituiu mais da metade dos valores no Brasil e atualmente conta com 70,7% conforme visto abaixo.


Tabela 9: Brasil: CDB/RDB x Depósitos a Prazo

Ano CDB/RDB com rendimentos incorporados Depósito a Prazo %
2009 563.338 703.485 80,1%
2010 617.059 786.360 78,5%
2011 715.097 943.662 75,8%
2012 642.769 899.218 71,5%
2013 587.690 897.216 65,5%
2014 546.341 900.737 60,7%
2015 552.078 933.738 59,1%
2016 627.367 1.048.104 59,9%
2017 749.072 1.179.457 63,5%
2018 911.518 1.423.219 64,0%
2019 1.010.762 1.551.074 65,2%
2020 1.597.979 2.260.218 70,7%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData e SGS/Bacen. Valores em milhões de reais a preços correntes.

Em relação aos CDB/RDB no Brasil, a maior parte é daqueles remunerados a juros flutuantes referenciados à taxa DI (a partir de 80% em toda série histórica levantada).


Tabela 10: Brasil: CDB/RDB DI

Ano CDB/RDB flutuantes DI CDB/RDB com rendimentos incorporados %
2009 470.391 563.338 83,5%
2010 529.662 617.059 85,8%
2011 611.710 715.097 85,5%
2012 557.394 642.769 86,7%
2013 513.115 587.690 87,3%
2014 464.669 546.341 85,1%
2015 456.941 552.078 82,8%
2016 481.031 627.367 76,7%
2017 599.529 749.072 80,0%
2018 763.486 911.518 83,8%
2019 840.869 1.010.762 83,2%
2020 1.413.573 1.597.979 88,5%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: SGS/Bacen. Valores em milhões de reais a preços correntes.


Origem das Captações dos Bancos Brasileiros – Grandes Bancos


Os 5 maiores bancos em volume de passivos e ativos são respectivamente Itaú (≅ BRL 1,96 trilhões), Banco do Brasil (≅ BRL 1,82 trilhões), Caixa Econômica Federal (≅ BRL 1,44 trilhões), Bradesco (≅ BRL 1,40 trilhões) e Santander (≅ BRL 1 trilhão).

O atual Banco do Brasil é um banco público brasileiro e remonta a 1851 quando foi fundado pela segunda vez pelo Irineu Evangelista de Souza - Barão de Mauá - após a falência da primeira iniciativa de Dom João VI em 1808 (Cortes; Marcondes, 2018, p.201-2). O Santander é um banco privado espanhol fundado em 1857 que começou a operar no Brasil em 1982. A atual Caixa Econômica é um banco público especial brasileiro que surgiu em 1861 por iniciativa do governo imperial após a falência da primeira iniciativa de 1859 (Cortes; Marcondes, 2018, p.201). O Banco Itaú é um banco privado brasileiro que tem suas origens no Unibanco com quem foi fundido e cujo começo remonta a 1924 (até então Casa Moreira Salles) e no Itaú de 1943 (até então Banco Central de Crédito). O Bradesco é um banco privado brasileiro que surgiu em 1940.


Tabela 11: Grandes Bancos Brasileiros – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2009 15.705.274 496.045.614 13.816.763 5.100.261 0 1.689.269.893 29,4%
2010 26.939.460 532.734.298 26.136.837 5.653.178 18.881.472 2.030.983.114 26,2%
2011 23.592.553 669.179.014 41.756.506 13.760.267 89.267.709 2.465.276.794 27,1%
2012 37.225.074 652.898.410 55.357.811 44.122.331 114.903.106 2.913.930.973 22,4%
2013 41.226.582 648.402.556 86.422.204 91.212.971 122.286.687 3.286.254.549 19,7%
2014 57.548.968 634.528.364 146.170.951 122.416.481 161.869.769 3.795.401.068 16,7%
2015 63.003.189 643.090.590 187.825.191 159.366.583 216.570.221 4.139.588.905 15,5%
2016 28.854.806 762.079.752 188.093.819 157.016.011 249.411.077 4.364.949.009 17,5%
2017 32.271.041 862.164.480 172.528.365 123.967.568 209.443.870 4.342.126.068 19,9%
2018 39.904.910 1.053.053.557 138.132.500 121.984.146 200.425.087 4.573.940.824 23,0%
2019 36.693.299 1.116.292.037 124.874.992 125.051.595 239.385.314 4.638.775.369 24,1%
2020 34.859.418 1.588.916.486 106.418.962 118.121.635 159.599.418 5.629.064.368 28,2%
2021* 41.637.306 1.589.890.487 101.213.926 113.239.426 151.237.222 5.743.616.442 27,7%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março.

Os Grandes Bancos Brasileiros combinados tiveram de 2009 a 2021 entre 15,5% e 29,4% de todas as suas captações originadas em depósitos a prazo. No primeiro trimestre de 2021, o saldo de depósitos a prazo alcançou em torno de BRL 1,6 trilhões.


Origem das Captações dos Bancos Brasileiros – Bancos Cooperativos


Os Bancos Cooperativos fornecem suporte profissionalizado para as cooperativas de crédito. Existem dois bancos significativos nesta tarefa no Brasil, o Bancoob e o Bansicredi.

O Bansicredi (Banco do Sistema de Crédito Cooperativo) surgiu em 1995 a partir da iniciativa de três centrais de cooperativas e dez cooperativas de crédito singulares. Por sua vez, o Bancoob surgiu em 1996 por iniciativa de 11 centrais de cooperativas de crédito. Os ativos e passivos dos dois bancos representam BRL 79 bilhões (Bansicredi) e BRL 77 bilhões (Bancoob).


Tabela 12: Bancos Cooperativos Brasileiros – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2009 6.570.148 69.756 0 5.562 0 15.038.060 0,5%
2010 11.372.511 65.991 0 698 0 22.263.612 0,3%
2011 12.204.218 121.509 0 1.917 0 27.565.362 0,4%
2012 15.718.889 95.090 0 5.343 0 32.652.269 0,3%
2013 18.553.760 116.621 0 24.188 0 39.385.587 0,3%
2014 20.972.476 228.174 0 144.054 0 46.978.442 0,5%
2015 21.343.414 218.524 0 217.744 210.941 51.265.249 0,4%
2016 28.173.017 321.897 0 440.644 247.190 67.086.553 0,5%
2017 33.010.411 455.224 0 758.409 4.558 75.031.876 0,6%
2018 34.889.005 596.535 0 810.911 0 84.877.042 0,7%
2019 36.712.184 647.766 0 1.292.457 853.149 96.239.721 0,7%
2020 50.432.252 1.037.858 0 2.691.537 1.518.242 126.958.243 0,8%
2021* 51.396.562 1.019.326 0 3.169.922 1.607.598 137.184.774 0,7%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março.

Apenas uma diminuta parte das captações dos dois bancos vem de depósitos a prazo (menos de 1% em toda série história a partir de 2009). Em valores absolutos alcançaram em torno de BRL 1 bilhão.


Origem das Captações dos Bancos Brasileiros – Bancos Regionais


O Brasil possui bancos regionalmente especializados. Selecionamos 6 deles para estudar sua forma de captação: o Banestes (1937), o Banco da Amazônia (1942), o Banco do Nordeste do Brasil (1952), o Banpará (1961), o Banese (1964) e o BRB (1966).

Os ativos e passivos dos bancos mencionados representam em torno de BRL 62 bilhões (BNB), BRL 32 bilhões (Banestes), BRL 28 bilhões (BRB), BRL 22 bilhões (Banco da Amazônia), BRL 12 bilhões (Banpará) e BRL 7 bilhões (Banese).


Tabela 13: Bancos Regionais Brasileiros – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2009 673.542 11.695.478 5.455 0 0 29.065.400 40,2%
2010 856.682 14.181.878 24.584 0 0 33.633.218 42,2%
2011 803.641 16.020.397 43.165 196.364 0 36.900.968 43,4%
2012 1.002.487 17.984.403 25.117 67.287 277.918 42.359.044 42,5%
2013 1.352.599 20.393.216 75.546 9.619 665.730 48.450.465 42,1%
2014 2.024.991 21.824.779 476.767 83.412 793.016 53.434.859 40,8%
2015 1.653.012 22.124.302 742.477 530.590 840.355 56.014.971 39,5%
2016 2.393.754 22.863.398 834.743 879.130 501.420 62.992.067 36,3%
2017 2.581.551 25.822.504 745.445 875.675 186.441 62.931.264 41,0%
2018 2.443.043 27.984.773 673.452 603.767 251.252 70.651.058 39,6%
2019 1.579.067 30.223.479 578.988 385.280 300.989 67.524.987 44,8%
2020 3.503.481 38.991.718 326.531 320.111 200.101 96.098.811 40,6%
2021* 3.624.420 42.904.717 369.458 312.918 2.058.621 99.856.674 43,0%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março.

Em torno de BRL 43 bilhões vieram desta classe de produtos de captação no primeiro trimestre de 2021. Em média 41,1% das captações dos bancos regionais selecionados vêm de depósitos a prazo na série histórica iniciada em 2009 e terminada em 2020. Este é um valor expressivo que demonstra a importância desta classe de produtos de captação para estes bancos.


Origem das Captações dos Bancos Brasileiros – Bancos Médios


Para os fins deste trabalho foram considerados bancos médios aqueles cujos ativos e passivos se encontravam entre BRL 30 e 6 bilhões. Selecionamos 7 bancos: BMG (1930), Mercantil do Brasil (1943), Sofisa (1961), Crefisa (1966), BS2 (1992), Inter (1994) e Pine (1997).

Os ativos e passivos dos bancos mencionados representam em torno de BRL 29 bilhões (BMG), BRL 21 bilhões (Inter), BRL 14 bilhões (Pine), BRL 11 bilhões (Mercantil do Brasil), BRL 8 bilhões (BS2 e Sofisa) e BRL 6 bilhões (Crefisa).


Tabela 14: Bancos Médios Brasileiros – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2009 494.461 13.156.422 5.823 322.240 0 22.564.746 58,3%
2010 577.286 16.508.801 44.082 810.380 49.660 26.411.560 62,5%
2011 619.760 22.139.662 78.259 556.796 114.499 34.109.341 64,9%
2012 474.009 22.357.532 218.553 702.322 927.607 34.049.285 65,7%
2013 470.289 20.854.500 669.854 774.542 1.768.980 32.634.785 63,9%
2014 1.267.681 18.628.992 1.320.667 1.056.095 2.254.240 32.738.796 56,9%
2015 988.305 17.785.915 1.848.280 1.108.853 2.145.850 31.615.985 56,3%
2016 450.602 19.719.969 2.206.464 1.024.641 1.002.696 29.695.267 66,4%
2017 405.586 23.572.073 2.484.689 959.080 1.002.560 31.772.779 74,2%
2018 393.501 27.381.195 2.317.132 665.794 1.159.022 35.427.246 77,3%
2019 388.132 29.862.615 2.415.799 707.639 2.066.318 41.457.645 72,0%
2020 860.352 40.813.159 2.135.465 933.037 5.675.068 65.610.608 62,2%
2021* 915.769 42.517.403 2.245.959 992.419 5.517.120 69.805.462 60,9%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março.

Uma quantidade expressiva das captações dos bancos médios selecionados vem de depósito a prazos. Esta classe de produtos de captação representa mais da metade das captações na série histórica apresentada e 60,9% no primeiro trimestre de 2021, ano em que seu saldo alcançou aproximadamente BRL 42,5 bilhões.


Origem das Captações dos Bancos Brasileiros – Bancos de Desenvolvimento


Selecionamos 4 bancos de desenvolvimento: o BNDES (1952), o BRDE (1961), o BDMG (1962) e o Bandes (1967). Estes bancos costumam ter atuações específicas tanto em suas aplicações de recursos (buscando promover o desenvolvimento econômico e social) quanto em suas captações (que costuma não utilizar depósitos à vista ou, se o fizer, utilizá-los em baixos volumes).

Os ativos e passivos dos bancos mencionados representam em torno de BRL 774 bilhões (BNDES), BRL 16 bilhões (BRDE), BRL 9 bilhões (BDMG) e BRL 1 bilhão (BANDES).

Por seu destaque dos demais o BNDES foi analisado separadamente:


Tabela 15: BNDES – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2009 3.258.834 0 0 0 0 204.589.938 0,0%
2010 0 0 0 0 0 296.445.036 0,0%
2011 0 0 0 0 0 366.584.825 0,0%
2012 0 0 0 185.622 0 447.045.534 0,0%
2013 0 0 0 267.732 0 488.690.099 0,0%
2014 0 0 0 1.379.794 0 581.938.103 0,0%
2015 0 0 0 6.498.484 0 603.208.424 0,0%
2016 0 0 0 7.511.110 0 500.461.926 0,0%
2017 0 0 0 2.277.781 0 477.635.964 0,0%
2018 0 0 0 637.240 2.355.478 384.248.761 0,0%
2019 0 0 0 0 2.499.234 268.728.011 0,0%
2020 23.392 0 0 0 1.004.450 312.812.833 0,0%
2021* 129.520 0 0 0 1.010.399 281.335.286 0,0%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março.

Como pode-se observar, o BNDES não se utilizou de depósitos a prazo durante a série histórica utilizada nesta pesquisa. Na sequência veremos os demais bancos de desenvolvimento selecionados de forma combinada:


Tabela 16: Bancos de Desenvolvimento Regionais – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2009 0 31.246 0 0 0 7.129.982 0,4%
2010 0 46.459 0 0 0 7.879.270 0,6%
2011 100.184 67.369 0 0 0 8.779.946 0,8%
2012 59.493 48.345 0 0 351.267 10.295.932 0,5%
2013 50.902 46.190 0 0 469.490 13.102.677 0,4%
2014 14.380 17.764 0 0 746.534 15.815.209 0,1%
2015 137.501 10.535 0 0 681.918 17.923.648 0,1%
2016 6.680 11.365 0 0 609.063 19.218.663 0,1%
2017 35.574 30.075 0 220.369 0 19.177.433 0,2%
2018 71.704 97.083 0 329.742 83.325 18.325.464 0,5%
2019 40.420 118.091 0 213.308 89.902 17.204.555 0,7%
2020 601.071 308.748 0 455.777 0 18.754.522 1,6%
2021* 600.981 333.477 0 499.543 0 18.657.490 1,8%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março.

Em 2021 o saldo dos depósitos a prazo representou mais do que 4 vezes a sua proporção início da série histórica para os bancos de desenvolvimento locais selecionados, passando de 0,4% (2009) para 1,8% (primeiro trimestre de 2021). Contudo, mesmo com este expressivo aumento, os depósitos a prazo continuam representando uma pequena parte da captação destes bancos.


Origem das Captações dos Bancos Brasileiros – Plataformas de Pagamento e Novos Bancos Digitais


Selecionamos 3 plataformas de pagamento e 2 bancos digitais para esta categoria. Estas novas instituições compartilham os traços de terem surgido apenas recentemente e terem modelos de negócios digitalizados desde sua gênese.

O Mercado Pago (2008), a Nu Pagamentos (2013), o Picpay (2015), o Nubank – Nu Financeira (2018) e o C6 Bank (2018). Os ativos e passivos se dividem em aproximadamente BRL 29 bilhões (Nu Pagamentos), BRL 28 bilhões (Nubank financeira) – totalizando BRL 56 bilhões para o "grupo Nubank", BRL 13 bilhões (C6 Bank), BRL 8 bilhões (Mercado Pago) e BRL 5 bilhões (Picpay).

As plataformas de pagamento não possuem captações bancárias (DI, Depósitos a prazo, LCI, LCA, LF, etc.) concentrando suas captações nas contas de pagamento pré-pagas. O grupo Nubank possui estratégia mista com a financeira fornecendo as captações de tipo bancário. Veremos a seguir os valores para os Novos Bancos Digitais (Nubank e C6):


Tabela 17: Novos Bancos Digitais Brasileiros – Instrumentos Selecionados, Captações Totais e Representatividade dos Depósitos a Prazo

Ano DI Dep. a Prazo LCI LCA LF Captações Dep.Praz/Cap.%
2019** 0 1.060.177 0 0 182.505 1.312.500 80,78%
2020 0 28.932.928 4.184 0 694.949 30.472.778 94,95%
2021* 0 30.918.135 4.206 0 702.053 33.870.149 91,28%

Fonte: Elaborado pelo autor. Base de dados: IFData/Bacen. Valores das captações em milhares de reais.

* Dados de 2021 até março. ** Apenas dados de C6 Bank; dados de Nubank começam em 2020.

Observamos que o grupo de Novos Bancos Digitais é intensivo em uso de depósitos a prazo começando com 80,78% de suas captações em 2019 com o C6 Bank e avançando rapidamente para mais de 90% com a entrada das operações do Nubank a partir de 2020.


Do Global ao Local


Como vimos, os títulos de débito representam valores significativos na União Europeia tendo alcançado valores equivalentes a 37,3% do PIB em 2020, com destaque para a França (58,8%). Nos Estados Unidos, quando olhamos apenas os depósitos a prazo a partir de USD 100 mil, o saldo deste instrumento continua significativo, embora tenha caído nos últimos anos, representando 7,3% do PIB deste país em 2020. No Brasil o saldo dos Depósitos a prazo representou 30,3% do PIB neste mesmo ano. Quando olhamos para os bancos agrupados, percebemos que os grandes bancos usam a classe de produto de captação dos depósitos a prazo de forma significativa (28,2% de seu saldo de captações em 2020), os bancos cooperativos a usam de forma marginal (0,8%), os bancos regionais se aproveitam de maneira expressiva (40,6%), os bancos médios a utilizam na maior parte de suas captações (66,4%), o BNDES não a usa, os Bancos de Desenvolvimento Local a utilizam também de maneira marginal (1,6%) e os Novos Bancos Digitais utilizam a classe de depósitos a prazo de maneira majoritária (94,95% de seu saldo de captações em 2020).

No Brasil, os CDB/RDB com rendimentos incorporados representam a maior parte dos depósitos a prazo alcançando 70,7% em 2020. Já os CDB/RDB remunerados a juros flutuantes atrelados à taxa DI representam a maior parte dos depósitos a prazo com rendimentos incorporados (88,5% em 2020).


Do Local ao Individual – Os Certificados de Depósito para o Investidor e para o Banco


Usualmente o rendimento líquido do investidor (RLI) do CDB para o investidor é o rendimento bruto do investidor (RBI) menos o imposto de renda do investidor (IRI). Por sua vez, o Imposto de Renda é dado por uma base de cálculo (o próprio RBI) multiplicada por uma determinada alíquota (air), conforme fórmula a seguir:

RLI = RBI − IRI = RBI − (RBI × air) = RBI × (1 − air)


Os casos em que o CDB é remunerado por uma proporção do DI são majoritários conforme já demonstrado. Nestes casos o rendimento bruto do investidor (RBI) do CDB será capitalizado em dias úteis no prazo da aplicação (Varanda Neto et al, 2019, p. 83-87). Conforme fórmula abaixo:

RBI = ∏n (1 + δ × DIn) − 1


Em que: "RBI" é o rendimento bruto do investidor, "δ" é a proporção pactuada da taxa DI, "DIn" é a taxa DI diária observada entre o dia anterior e o dia atual (diferente a cada dia útil) e "n" é o número de dias úteis do contrato.

No entanto, o custo para o banco do produto de captação (CPC) é maior do que o rendimento recebido pelo investidor. Cabe ao banco arcar com os custos de vendas do produto de captação (CVPC), como o custo da plataforma de negociação do CDB, quando esta for utilizada, e o custo do Fundo Garantidor de Crédito – FGC (CFGC). Conforme fórmula abaixo:

CPC = RBI + CVPC + CFGC


Costumeiramente é a Mesa de Captações do banco que define a oferta de produtos de captação propondo a rentabilidade bruta (RBI) e calculando o custo do produto de captação (CPC) que representa o preço que o banco está disposto a pagar para se capitalizar. É também ela que define outras características como tipo de produto, liquidez, tipo de taxa de juros, etc. A Mesa de Captações exerce o ofício de equilibrar as demandas do mercado e as demandas internas da instituição para viabilizar os trabalhos da instituição financeira e promover a sua continuidade sustentável.

O custo da captação (CCap) do banco ainda pode envolver o custo de manter liquidez mínima requerida da instituição financeira (CL), os custos de hedge (CH) para a transformação das características da captação em, por exemplo, duration e tipo de taxa de juros, quando existir esta necessidade, de forma interna ou externa, e os custos para manter compulsórios bancários quando estes forem requisitados (CComp). Conforme equação abaixo:

CCap = CPC + CL + CH + CComp


Em norma, esta atividade é realizada pela Mesa ALM do banco. Também cabe a ela transformar as captações em dinheiro disponível para aplicação por processos que podem incluir, por exemplo, agrupamentos e desmembramentos que virão a constituir os saldos disponíveis para aplicação e preço interno de transferência de recursos (FTP – Fund Transfer Pricing). O saldo disponível e o FTP demarcam a transição dos recursos de terceiros entre as funções de captação e as funções de aplicação dos recursos na instituição financeira. Desta forma, o FTP se dá conforme a seguinte equação:

Custo FTP = Σj (CCapj × φj)


O Custo FTP do funding ou pool de fundings (dos capitais de terceiros disponíveis para uso na instituição financeira) é igual ao somatório de i a n do custo da captação (CCap) multiplicado pela sua proporção daquele recurso no total de recursos disponibilizados (φ), em que "j" é o número de captações envolvidas.


Discussão e Conclusões


Os preços dos produtos de aplicação em uma instituição financeira variam em função de vários componentes, entre os quais se encontra em destaque o FTP. O FTP é construído internamente ao banco com base no custo das captações. Este por sua vez deriva do custo dos produtos de captação cuja origem é, finalmente, a remuneração do investidor.

Entender a atualidade e o percurso das captações é fundamental, pois representa compreender o ponto de contato inicial entre um banco e a sociedade. A multiplicidade de formas de captação impede que toda ela seja demonstrada de uma só vez. Novos estudos poderão complementar este. Para conseguir jogar luz sobre o fenômeno optamos por seguir com o caso dos depósitos a prazo refinando para os Certificados de Depósito (CD) e, finalmente, para os Certificados de Depósito Bancário (CDB) sempre que possível. Isto foi feito porque os CD no mundo e o CDB no Brasil são um dos produtos de captação mais universais existentes. Tais certificados são uma inovação do século XX cujas origens remontam a uma vasta história.

Este artigo foi escrito com a intenção de ampliar o debate. Há fartas oportunidades de expandir o que aqui foi trazido em todas as dimensões. Na dimensão de detalhamento há muito mais para ser dito sobre CD, CDB, FTP. Na dimensão de amplitude de produtos nacionais de captação, muito pode ser discutido sobre DI, DPGE, LCI, LCA, LF, entre outros. Na dimensão de amplitude internacional, muito mais pode ser apresentado sobre o funcionamento dos diferentes sistemas financeiros subsidiando aprimoramentos cruzados. Há um universo multidimensional de pesquisas sobre a construção dos passivos de um banco e a transformação deles em ativos. O aprofundamento da geração dos ativos (como os empréstimos e financiamentos) ajuda a explicar o valor que os bancos adicionam aos mercados e às sociedades em que estão inseridos.

Neste estudo utilizamos fontes de estudo diversas entre as quais a bibliografia normativa. Aos justos críticos que apontarem que algumas destas referências não têm caráter necessariamente científico, concordamos que seja verdade. Contudo, lembramos que nas finanças reais, principalmente entre seus elementos não padronizados, os usos e costumes do mercado possuem tanta força para promover o fenômeno financeiro quanto as normas estabelecidas. Toda bibliografia normativa incluída traz consigo a autoridade de "influenciadores de mercado" tanto pela trajetória acadêmica quanto pela vivência dos autores em negociações do mercado real. De tal sorte que, se não puderem ser consideradas fontes epistemológicas, que sejam ao menos fontes de usos e costumes que de fato ajudam a produzir e compõem o fenômeno das finanças bancárias reais.

Para encerrar, acreditamos que só o aprofundamento dos conhecimentos sobre instituições financeiras poderá aprimorá-las e que fazê-lo trará mais prosperidade e oportunidades para todos.


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