por Renato Paulo Nicácio Pedrosa
"Aliás, noções de 'bons' casos de pesquisa são muito relacionadas aos pressupostos filosóficos e as compreensões que o autor carrega sobre o relacionamento entre a teoria e a observação empírica." Piekkari, Plakoyiannaki e Welch (2010), traduzido.
Texto:
Piekkari, Rebecca; Plakoyiannaki, Emmanuella; Welch, Catherine. 'Good' case research in industrial marketing: insights from research practice. Industrial Marketing Management, v. 39, n. 1, p. 109-117, 2010.
As autoras partem de uma constatação: apesar do crescimento da literatura metodológica sobre estudos de caso nos últimos vinte e cinco anos, os desafios específicos do uso dessa metodologia no marketing industrial haviam recebido pouca atenção. O artigo propõe examinar não como a pesquisa de caso deveria ser conduzida segundo os textos metodológicos, mas como ela foi efetivamente conduzida nos principais periódicos do campo ao longo de uma década (1997–2006). As autoras posicionam-se a partir de Platt (1988; 1996), argumentando que o contexto disciplinar molda fundamentalmente o que se entende por estudo de caso e quais padrões de pesquisa são aceitos. A premissa central é que não existe um único conjunto de "melhores práticas" — antes, noções de "boa" pesquisa de caso são dependentes dos pressupostos filosóficos do autor e de sua compreensão da relação entre teoria e observação empírica.
A introdução revela desde o início uma tensão que percorre todo o texto: as autoras afirmam que convenções disciplinares moldam o entendimento metodológico, mas escolhem demonstrar essa tese por meios que, eles mesmos, reproduzem convenções positivistas — análise de conteúdo, contagem de frequências, categorias induzidas a partir de dados. Trata-se de uma crítica ao positivismo implícito que não consegue se emancipar inteiramente dele.
As autoras reconstroem o modelo dominante de pesquisa de caso no marketing industrial, fortemente influenciado por Yin (2003), sintetizado na Tabela 1 como um processo linear com fases claramente identificáveis: definição do propósito, desenvolvimento teórico prévio, escolha do design (caso único ou múltiplo), triangulação de múltiplas fontes de evidência, critérios de validade e confiabilidade adaptados da pesquisa quantitativa, e estruturação do relatório. Embora Yin permaneça a referência central, as autoras identificam quatro eixos de questionamento que emergiram na comunidade do marketing industrial: a definição de estudo de caso (a distinção entre eventos históricos e contemporâneos é questionada por Dubois & Araujo, 2004); o uso de múltiplas fontes de evidência (Easton, 1995, problematiza a lógica de convergência da triangulação); a busca por alternativas filosóficas ao positivismo (Easton, 1998, propõe o realismo crítico; Gummesson, 2003, afirma que toda pesquisa é interpretativa); e o processo de teorização (Dubois & Gadde, 2002, propõem a abdução como alternativa ao modelo dedutivo de Yin).
A seção é competente como revisão de literatura, mas revela um traço que se repetirá: as autoras catalogam posições alternativas ao positivismo sem se declarar explicitamente a favor de nenhuma. A leitura atenta sugere uma inclinação — a abdução de Dubois & Gadde é apresentada com simpatia, o positivismo é descrito como "questionado" — mas a declaração de posição filosófica própria nunca acontece, um certo distanciamento (que tende a imperar no positivismo e pós-positivismo).
Piekkari, Plakoyiannaki e Welch selecionaram três periódicos dedicados ao marketing industrial — Industrial Marketing Management, Journal of Business-to-Business Marketing e Journal of Business and Industrial Marketing. A primeira fase classificou os artigos em categorias (conceitual, quantitativo, qualitativo, misto, profissional, metodológico). As autoras enfrentaram o problema de definir o que contaria como estudo de caso, e refinaram a definição de Yin para incluir a exigência de que o caso tenha uma vinculação com a teoria — vinculação que pode evoluir durante o estudo, seguindo Ragin (1992). Os resultados desta fase confirmaram que o estudo de caso é a forma dominante de pesquisa qualitativa no marketing industrial: 145 estudos de caso foram identificados, correspondendo a 14% do total de artigos publicados.
A justificativa para o recorte de dez anos merece atenção. As autoras afirmam que "the same time span is common in methodological reviews" e citam quatro estudos como precedente. Trata-se de um critério de validade por semelhança — é aceitável porque outros fizeram o mesmo — e não por razão substantiva sobre por que dez anos, e não oito ou quinze, seriam o período adequado para capturar práticas disciplinares. É uma epistemologia do camaleão: o verossímil pela semelhança substitui o verdadeiro pela demonstração. As autoras complementam com a justificativa funcional de que o período oferece "sufficient breadth", mas essa justificativa vem depois, como reforço, não como fundamento. A segunda fase envolveu uma análise qualitativa de conteúdo dos 145 artigos, com codificação dupla e categorias inicialmente derivadas do modelo linear (Tabela 1), e depois complementadas por categorias induzidas — "prática comum" e "prática inovadora" — à medida que a diferenciação entre as recomendações metodológicas e as práticas reais se tornou evidente.
As práticas rotuladas como "melhores" pelos próprios autores dos estudos analisados incluíam amostragem proposital, triangulação de fontes ou de investigadores, validação por respondentes e procedimentos sistemáticos de codificação. As autoras da revisão acrescentam sua própria concepção de boa prática: transparência e reflexividade metodológica, fidelidade ao propósito da pesquisa e consciência das limitações das escolhas feitas.
O estudo de caso mais comum no período foi exploratório, baseado em entrevistas, com fundamentos filosóficos não explicitados e positivismo implícito como norma. Os achados eram tipicamente reportados de forma linear. O relato metodológico era frequentemente escasso: 80 artigos não explicaram seus métodos de análise, e 39 não incluíram nenhuma referência metodológica. Yin era de longe o autor mais citado (70 artigos), seguido por Eisenhardt (27). As autoras observam que essas fontes são por vezes citadas "de forma quase ritualística", independentemente dos pressupostos epistemológicos do estudo.
As práticas inovadoras incluíam estudos não-positivistas (raros), estudos de teste de teoria, pesquisa longitudinal e processual, fontes de dados incomuns (transcrições judiciais, fotografias, experimentos de campo, observação participante) e combinações de métodos qualitativos e quantitativos dentro do design de caso. As autoras destacam que os autores do estudo mais inovador do período, Rinallo & Golfetto (2006), evitaram deliberadamente o rótulo "estudo de caso" em favor de "etnografia" para escapar das associações positivistas da metodologia. Mas me parece faltar ainda um estudo definitivo para diferenciar ambos os gêneros para além de convenções miméticas entre estudos semelhantes.
A estrutura tripartite é a principal contribuição do artigo. Contudo, o modo de demonstração é revelador: as autoras precisam de frequências, de n=145, de tabelas comparativas — instrumentos quantitativos — para conferir autoridade à sua análise de práticas qualitativas. A legitimidade da crítica ao positivismo é construída por meios positivistas. Comparando com Gioia, Corley & Hamilton (2013)1, por exemplo, a diferença é estrutural: Gioia constrói a autoridade de sua metodologia pela transparência e rigor do processo qualitativo em si, sem precisar contar quantas pessoas fazem diferente para justificar o que ele faz.
As autoras concluem argumentando em favor de consistência paradigmática, reflexividade e maior inovação na pesquisa de caso. A prática comum não está alinhada com as recomendações da literatura metodológica — é "boa o suficiente para ser publicada" mas não é "boa" prática. Ao mesmo tempo, a prática comum não incorpora as recomendações alternativas feitas por estudiosos do marketing industrial. As autoras recusam recomendar um único conjunto de padrões, pois isso implicaria ditar a abordagem filosófica a ser seguida. Em vez disso, argumentam que o pesquisador deve ser coerente e transparente sobre quais pressupostos orientam suas escolhas — um argumento por consistência virtuosa, e não por reflexividade viciosa. Não faria sentido que se entrevistasse os autores para entender qualitativamente o que mais pode estar escondido nesse "problema"?
O texto de Piekkari, Plakoyiannaki e Welch (2010) é uma contribuição relevante para o debate sobre metodologia de caso, especialmente pela demonstração empírica do descompasso entre o que a comunidade acadêmica prescreve e o que efetivamente pratica. A tipologia tripartite — prática comum, melhor prática e prática inovadora — é uma ferramenta conceitual útil para situar qualquer pesquisador em relação às convenções de seu campo. Contudo, parece inadvertidamente restringir o campo dos estudos de caso à pesquisa qualitativa na tradição aberta por Eisenhardt (1989)2, naquilo que Burrell e Morgan (1979)3 chamariam de paradigma funcionalista. Essa restrição seria de fato fundacional ao campo de estudos de caso ou acidental? Haveria espaço para outros paradigmas como o interpretativismo, o humanismo radical e o estruturalismo radical no seio do gênero denominado como estudo de caso?
1 GIOIA, Dennis A.; CORLEY, Kevin G.; HAMILTON, Aimee L. Seeking qualitative rigor in inductive research: Notes on the Gioia methodology. Organizational Research Methods, v. 16, n. 1, p. 15-31, 2013. DOI: 10.1177/1094428112452151.
2 EISENHARDT, K. M. Building theories from case study research. Academy of Management Review, v. 14, n. 4, p. 532-550, 1989. DOI: 10.2307/258557.
3 BURRELL, Gibson; MORGAN, Gareth. Sociological paradigms and organizational analysis. London: Heinemann, 1979.
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