quarta-feira, 25 de março de 2026

Uma questão de método

por Renato Paulo Nicácio Pedrosa


"Dialética [...], o processo de resolver ou fundir contradições em razão de atingir verdades superiores." www.etymonline.com ao resumir o pensamento hegeliano, traduzido.


Texto:

Yilmaz, K. (2013). Comparison of quantitative and qualitative research traditions: Epistemological, theoretical, and methodological differences. European Journal of Education, 48(2), 311-325.


O artigo de Yilmaz (2013) no European Journal of Education faz algo que julgo ser interessante e curioso: ele compila e resume em formato de artigo uma série de manuais de produção científica. Por um lado, isso é ótimo, pois serve de solução expressa para a construção metodológica. Mas, por outro, traz algumas armadilhas ligadas à profundidade do nexo entre objeto pesquisado e meio de pesquisa. Não caberá discutir tais pontos nesta breve resenha, mas destacá-los para investigações futuras. Cabe talvez apenas ressaltar algo intermediário que às vezes escapa ao estudante iniciante: a compreensão da importância do contexto do artigo. Ele não flutua por si só, mas compõe junto da revista um empreendimento de literatura científica com coesão de propósito. Uma revista de educação se preocupa em educar, em transmitir conhecimentos. Uma revista de filosofia da ciência se ocupa de compreender por completo, em fundamentar – tornar fundamental, elementar ou autoevidente. É uma diferença que pode parecer sutil, mas que é central na construção de um referencial e toca de alguma forma o nível da discussão sendo feita. Diferentes discussões podem ser igualmente válidas, mas sem servirem ao mesmo nível de empreitada de investigação.

Isso se torna crucial no que vem adiante, pois diferentemente do que o autor expõe, creio que a diferença crucial da pesquisa qualitativa e da quantitativa não é uma listagem de características paradigmáticas. Essa lista é a consequência e não a razão dos paradigmas. Justificar o paradigma pelas suas consequências me parece um tanto circular, embora pragmático e útil. Na minha forma de pensar, o que distingue a pesquisa qualitativa da quantitativa é que a primeira busca a prova por autoevidência, por clareza tão imediata (não rápida, mas sim sem meios intermediários) que não admite contraditório razoável (dialeticamente resolvida). Já a pesquisa quantitativa busca a prova por demonstração (por sucessão lógica de argumentos) que, dadas as premissas, leva a conclusões que são necessárias. Contudo, se questionadas as premissas, nenhuma conclusão é válida. Daí porque eu provoco ao debate insinuando que toda pesquisa quantitativa parte de uma investigação qualitativa anterior, seja ela explícita e admitida, ou implícita e consentida.

Yilmaz (2013) abre o artigo com uma implícita pergunta de ordem prática: como escolher a metodologia da pesquisa? Responde apontando para as duas grandes abordagens possíveis: por métodos quantitativos ou por métodos qualitativos. Ou seja, age de forma indutiva, parte de um caso particular tão comum a qualquer pesquisador. A esse desamparo inicial, seu trabalho vem ao resgate ancorando-se no tripé epistemológico (estudo do saber), teorético (estudo da teoria) e metodológico (estudo do método).

Em seguida, parte para uma rápida definição (problematizada no prólogo deste texto). Os métodos quantitativos seriam aqueles baseados em ordens expressáveis e demonstráveis em linguagem matemática. Já os métodos qualitativos seriam... complicados. Seriam por definição não quantitativos, mas também não singulares, mas multifacetados e multiparadigmáticos. Porque os métodos qualitativos seriam emergentes, indutivos, interpretativos e descritivos para estudar outra lista de fenômenos que por distintivo possuem o fato de serem diretamente ligados a questões humanas. O autor ilustra essa multiplicidade exemplificando com uma lista de abordagens qualitativas que vão da história oral à teoria fundamentada (grounded theory). Explica que a pesquisa quantitativa parte de uma posição epistêmica objetiva (da primazia do objeto independente sobre o sujeito cognoscente) e estável (governado por leis precisamente mensuráveis) e a pesquisa qualitativa parte de uma posição epistêmica construtivista (o significado construído pelo sujeito cognoscente é a realidade) e socialmente influenciada ou determinada (a decisão semântica não é autônoma, mas culturalmente costurada e condicionada).

O autor aponta que a solução para a escolha entre as duas abordagens maiores (qualitativa ou quantitativa) vem da resposta a algumas perguntas-chave. A) O design do trabalho se encaixa em qual tradição paradigmática (em qual visão de mundo)? B) Quem ou o quê será estudado? C) Quais estratégias de investigação serão empregadas? D) Quais métodos e ferramentas serão utilizados para coletar e analisar os dados? Ou seja, informa que (a) há uma continuidade comunitária-institucional na produção de pesquisas, (b) que a recomendação da abordagem responde a limites e potencialidades do objeto de pesquisa, (c e d) e que a forma concreta de pesquisar está ligada a possibilidades concretas do contexto, e, portanto, determina a escolha da abordagem principal e não é apenas determinada por ela.

No texto resenhado, observa-se que os métodos quantitativos buscam isolar objeto e pesquisador (que poderia contaminar o objeto alheio a si) por meio de uma série de técnicas como instrumentos padronizados pré-construídos, categorias de resposta pré-determinada, amostragem generalizável (aleatória e representativa). Nesse método o que se encontram são quase-leis (que têm como ideal relações de causa e efeito) que já estariam lá antes da intervenção de um ator pensante com graus de liberdade. Por sua vez, os métodos qualitativos buscam a integração de processos, contextos, interpretações, significados e compreensão por meio de raciocínio indutivo. O fenômeno é percebido como mutante uma vez que o pesquisador faz parte e modifica o contexto que já estaria em constante mutação por atores intrínsecos com capacidade similar ao do pesquisador. Por isso, busca-se profundidade, respostas abertas, citações diretas dos participantes e construção compartilhada de significado. Na explicitação de resultados, o método quantitativo frequentemente entrega fórmulas lógico-matemáticas enquanto o método qualitativo responde com refinamentos explicativos por meio de descrições mais fiéis, definições mais claras e interpretações mais verossimilhantes. Cabe questionar a identificação de métodos qualitativos com o pensamento indutivo, havendo muitos trabalhos abdutivos e até alguns dedutivos.

Enquanto paradigmas, segundo Yilmaz (2013), a pesquisa quantitativa bebe de fontes determinísticas, enquanto a pesquisa qualitativa dança com fontes relativistas. O autor observa uma diferença temporal com os métodos qualitativos sendo mais recentes. Ele demonstra isso relacionando com as perspectivas pós-positivistas, pós-estruturalistas, construtivistas e críticas que são relativamente recentes em relação implícita com as ciências naturais. Mas isso me parece ser intra-paradigmático. Essa classificação necessita de uma separação clara (positivista) entre ciência e pré-ciência para sobreviver. Vista de forma integrativa, ambas as abordagens coexistem de forma histórica, sendo possível exemplificar com elementos da antiguidade clássica, como Aristóteles e Pitágoras.

O autor percebe e lista que as grandes abordagens envolvem diferenças ontológicas (o que é a realidade?), epistemológicas (como se sabe?), axiológicas (quais são os valores – os consensos iniciais – que orientam a pesquisa?), retóricas (em qual discurso se encaixa a pesquisa?), e metodológicas (qual é o processo real aplicado na pesquisa?). Hei de notar algo que referencia à minha crítica original: questões ontológicas, epistemológicas, axiológicas, retóricas e metodológicas não são questões resolvíveis por métodos quantitativos isoladamente, mas que podem ser resolvidas por métodos qualitativos isoladamente. De tal forma que uso essa constatação como evidência da provocação original de que toda pesquisa quantitativa tem por base uma investigação qualitativa.

Desse ponto o autor parte para os critérios de julgamento das pesquisas em suas abordagens. Discute confiabilidade (uma verdade deve permanecer verdade se os seus condicionantes permanecem) e validade (a precisão da engenharia que conecta condicionantes e conclusões) e constata que ambas são construídas para a pesquisa quantitativa. Na elaboração que segue processa várias fontes e adere à visão de Lincoln and Guba (1985), resumindo o julgamento da pesquisa em quatro critérios intercambiáveis entre pesquisa qualitativa e quantitativa. O primeiro critério é o valor como verdade que se apresenta na pesquisa quantitativa como validade interna (atributos de relações de causa e efeito) e na pesquisa qualitativa como credibilidade (melhor explicação disponível definida por consenso). O segundo é a aplicabilidade expressa por validade externa (capacidade de ser generalizada) na pesquisa quantitativa e "transferabilidade" que é a capacidade das conclusões para serem úteis e elucidativas, ainda que parcialmente, em outros contextos. O terceiro critério é a consistência: confiabilidade na pesquisa quantitativa e a capacidade de corresponder ao que dela se espera (dependability) no caso da pesquisa qualitativa. Por fim, o último critério é a neutralidade que é encontrada por meio da objetividade no caso da pesquisa quantitativa e da confirmabilidade (o não abuso e a não distorção da capacidade de interpretar) no caso da pesquisa qualitativa. Mas o autor reconhece que esses critérios não são universalizados e dependem da raiz teleológica (estudo da finalidade) da abordagem de pesquisa qualitativa aplicada.

Yilmaz (2013) conclui de forma utilitária e conciliatória apontando uma nova perspectiva em que cada abordagem (quantitativa e qualitativa) tem suas forças e fraquezas. Apresenta que elas devem ser escolhidas de forma estratégica para responder a vários fatores, como o plano de pesquisa, as questões a serem respondidas e ao contexto do pesquisador e da audiência.

O texto contribui para o entendimento utilitário e racionaliza a seleção de abordagem na pesquisa. Há pontos discutíveis e problematizáveis. Mas o texto é sem dúvida um excelente ponto de partida para a compreensão, discussão, defesa e utilização dos métodos qualitativos vis-à-vis os métodos quantitativos.

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