Por Renato Pedrosa
Se diz por aí que Administrar é planejar, organizar, executar e controlar. Pelo menos é isso que dizia o doutor Maximiano em seu belíssimo livro de Introdução à Administração de capa preta como o céu noturno e letras claras como as estrelas a brilhar. Aquele livro iluminou os meus inocentes primeiros dias na ciência do Barão Mauá (o maior de todos), Dom João II (não o Pedro, mas o João mesmo), JK e Matarazzo. (O quê?! Você esperava que eu falasse Taylor, Fayol e Ford?!)
Contudo, cá estou eu catapultado no tempo vivendo uma perigosa vida de Guimarães Rosa nas gerais enquanto desvio das pedras não jogadas por Drummond e sorvendo as batatas dos vencedores do machadiano Quincas Borba. Herdeiro de Policarpo (O Quaresma) sigo cercado de livros e sem ser doutor (pelo menos não ainda), com a apaixonada energia da Senhora de José de Alencar e o vigor de Ulisses em odisseia. E cá, relendo minha caminhada, percebo que é um tanto quanto romantizada a visão passada sobre o que é administração. Ela me soa agora como uma má tradução de um inglês americano com forte sotaque.
Administrar para mim, enfim, é escolher, negociar e garantir a execução.
Mas observe as dúvidas. Como escolher? Para quê negociar? E como garantir a execução? A verdade vos digo, pode-se planejar ou improvisar, organizar ou seguir uma súbita e caótica inspiração, pode-se executar ou adquirir e pode-se controlar ou simplesmente confiar em relações de confiança (especialmente naquelas de longo prazo).
Mas sempre, sempre e sempre é necessário ensinar. Ensinar a si para bem escolher, aprender com os dados e fatos de Pitágoras, e também com a moda e com os desejos mais subjetivos e dissimulados como Capitu. Afinal, quem precisa de cavalos mais velozes quando se pode ter um automóvel, não é mesmo? E a beleza? Ah... a beleza que transforma um MP3 Player de R$ 20 encalhado na prateleira em um encantado iPod de R$1.799 por R$1.699 com fila de espera no lançamento. Isso para não falar na capacidade de chegar ao espaço, a fronteira final, com a SpaceX, sonho de qualquer menino em qualquer idade e de qualquer tipo.
Um administrador é alguém que sabe ensinar a si, mudar de ideia, testar, inspirar e inspirar-se. Enfim, é alguém que aprende. O faz sobretudo para saber bem escolher. Não basta, é claro, esta graduação. É necessária a maestria de saber escolher, tanto em tempo bom, com um mapa bem desenhado sobre uma mesa de maneira sólida, quanto inconfessavelmente trêmulo e atacado pelas violentas flamulas de um incêndio descontrolado. Também é desejável o doutoramento de saber quando se deve escolher e quando se deve delegar a escolha, quando se deve responder de pronto e quando se deve procrastinar: deixar em banho maria uma matéria até que o tempo se encarregue de resolvê-la.
Definida a escolha (visão, missão, objetivo, meta, etc. como no jargão) é necessário engajar os detentores naturais dos recursos para dispô-los a combiná-los. Do amalgama de forças e estruturas vem a potência vetorial capaz de quebrar a inércia do estado atual movendo a situação em direção ao estado desejado. Esta etapa é a negociação. É nela que como em uma tese acadêmica se expressa (se ensina) a justificativa, a relevância e a contribuição (a DRE projetada dos ganhos) de uma iniciativa (de um empreendimento), e, por fim, se institui uma organização (uma entidade coordenada para atingir uma determinada finalidade).
Logo resta a etapa de garantir a execução. É preciso ensinar e aprender a harmonia, o timbre, a cadência e o ritmo da aplicação dos recursos. Torna-se cinética o que era potencial. Seguindo a intuição de Nelson Rodrigues, aprenderemos no dia-a-dia do chão de fábrica que toda unanimidade é burra. Diferentes visões agregam notas à melodia de base que vai se transformando do resultado idealizado no produto concreto.
Todo o processo de administrar envolve um ciclo retroalimentado ("feedbackado") de ensino e aprendizado em busca do objetivo (escolhido, negociado e realizado). Mas, se tal é o desfecho; quem ensina e forma tais trabalhadores do conhecimento – como chamaria Peter Drucker em Desafios Gerenciais no Século XXI? Se, como falamos, os administradores são eternos e "revolventes" alunos e professores em sua atividade cotidiana; como os preparar?
Antes de resolvermos os desafios de Drucker, temos que nos dedicar aos atemporais desafios do ensino da e na administração. Problemas temos de monte. Há quem perceba fábricas de administradores soltando fuligem cinza no desejado céu azul dos pretendentes à profissão. Uma grande professora já observou que "uma realidade estilhaçada - em que ensino, pesquisa e extensão não formam o desejado fio condutor de uma ciência reflexiva" - é um perigo.
E o docente? Hoje ele é muitas vezes um professor bombril que se dobra e desdobra em 1.001 utilidades através de dias longos e anos curtos para atender as diferentes expectativas: de aluno no Strictu Sensu a maestro da graduação. Conhecimento medido por quantidade e na velocidade de um fast food. Tudo isso enquanto o essencial é invisível aos olhos como descobriu o Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry. Por isso temos que nos perguntar: chegarão ao fim as escolas de negócios? Até em Stanford se percebe que um padrão Made in U.S.A. não pode ser tamanho único para o mundo inteiro. Muitas vezes o que se vê é pequena profundidade e grandes lucros. Delas surgem muitas vezes ideias sem fundação que contaminam organizações que, por sua vez, continuam sem a capacidade de alçar-se do terceiro mundo. Uma tristeza. Com tanto vazio no saco plástico-metalizado de "chips" acadêmico, não é difícil de entender a desconexão entre universidade e sociedade. Para mim, bom mesmo é nutrir-se com a raiz forte dos clássicos temperada com o costume local vivido em cada local.
Mas, se tem clássico, tem teoria. Não é, José Maria? Liberal ou autoritário? Depende do paradigma. Vai de tradicional ou naturalista? O problema é o abuso, mas qual é qual? "Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo." É assim neste Grande Sertão. Cognitivismo ou construtivismo? A realidade descoberta ou modelada? Para mim, a melhor é a miscigenada. De cada canto o seu triunfo e cada um do seu melhor jeito. Tudo junto e misturado. A gente chama Piaget e autores brasileiros, e deixa eles ouvindo cantiga de roda e sambando no terreiro. Por aqui Marx pode até chutar a gol, mas Adam Smith é o goleiro. Empiristas e racionalistas se encontram no bar e sentados na mesa gritam truco, seis, doze. E voltam a se reencontrar na noite seguinte na Taverna do Amaral. A vida é o maior objetivo, já diria o Dr. Jonathan a teorizar.
Muitos falam sobre educação, mas ela continua envolta em mistério. A Dra. Marisa Bittar nos mostra as idas e vindas da história da educação, sempre atenta a questões críticas. Paulo Freire contribui com a Pedagogia do Oprimido e da Autonomia. O Dr. Ruy Nunes interpreta esta história da educação com a busca da verdade para elevar a vida. O Dr. Alfred Whitehead a vê como uma busca de autodesenvolvimento em estágios e funções complementares. Na sociologia da educação o debate é enorme. Fenômeno natural da sociedade, aparentemente não houve sociólogo que não quis colocar sua perspectiva pessoal. Max Weber gostava de separar educação de pedagogia, pois acreditava que a primeira era um aspecto natural e a outra um avanço na ciência para potencializá-la. Na filosofia a coisa não é diferente, desde os pré-socráticos (que eram professores) até popstars da contemporaneidade como Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal e Cloves de Barros Filho; todos sempre discursaram sobre educação. Disseram em uníssono ser característica de pessoas livres, capazes e autônomas, mas as receitas variaram. A frase "se você acha a educação cara, espere até ver o quanto custa a ignorância" eternizou-se na sabedoria popular com disputada autoria que é geralmente atribuída a um ex-reitor de Harvard. Do oriente, Confúcio diria que se você tem meta para 100 anos, deve educar uma pessoa. Poucas palavras são tão frequentes no jargão do administrador quanto meta.
De Frankfurt a São Paulo em ponte aérea sem escalas, o patrono da educação se tornou polêmico. Mas não é questão de formar times e se rivalizar. Há quem duvide que devemos refletir e até mesmo criticar quando necessário? Há quem duvide da baixa qualidade da nossa educação? A solução, penso, é dar as mãos e trabalhar. Antes de educar, educar-se. Olha aí de novo o professor-aluno! Até mesmo Freire falou da dialética do aprendizado. Ou eu estou mentindo? Se o objetivo é a elevação, há sim quem venda gato por lebre. Sem a literatura não há o que contar e sem as contas nada para de pé. Não há razão de se rivalizar as humanas e as exatas. Ninguém chega à lua sem calcular a trajetória, mas tal epopeia nem é cogitada sem o canto e o encanto das histórias e dos sonhos de pioneiros. Além do mais, você pensa que se faz qualquer uma destas coisas sem administrar? Escolher, negociar e garantir a execução. E tenho dito! E como meio deve-se ensinar. Ensinar a si e ao próximo.
E o método para ensinar? Como se faz?
Para ensinar a matemática da contabilidade de ganhos e a teoria das restrições se usa a literatura de A Meta, não é Goldratt? Para vislumbrar, ainda que de relance, a discussão da administração; ajuda obter a geometria dos tipos ideais do Henry Mintzberg e os capítulos sequenciais de seu Safari. A retórica da negociação precisa se sustentar com os dois pés bem firmes da Vantagem Estratégica. E, para demonstrá-la, mais figuras geométricas e esquemas que atuam como se estivessem a provar um teorema. Para falar de marketing: design thinking e seus descendentes como o Value Proposition Model que monta em persona concreta um punhado de estatísticas inanimadas. E, para falar de medos e perigos, é importante empregar a estatística da Teoria Moderna do Portfólio de Markowitz. Entendeu o meu ponto? Para o concreto ensinar, você precisa romantizar. Já para a arte empregar, é preciso somar e tangibilizar!
É tudo sobre bem alocar recursos escassos. E alguns são mais escassos que os outros. Sabe qual é a diferença entre perder dinheiro e perder tempo? É que o primeiro você pode recuperar. Os anos passam e o que resta é pouco, professor Bombril, mesmo que você tenha glória e fama. Seja você um realizador vigoroso de sonhos ou esteja apenas na esperança de dias melhores, é preciso aproveitar a excitação de vida que ainda temos. Para bem aproveitá-la, é preciso escolher bem (administrar!). Para fazê-lo é preciso saber. Para isto é preciso aprender. Se eu me repito esta lição é porque esta é uma das técnicas de aprendizagem. Há outras? Várias. Mas sempre no mesmo fundamento. Se aprende pela persistência e pelo interesse. Beba água para se hidratar, durma bem, respeite seus limites, faça a leitura prévia e acredite em suas capacidades. Depois transforme o conhecimento nas mais variadas formas que puder. Se ouviu algo importante, desenhe; se o leu, construa um esquema; se o viu, explique para outra pessoa usando apenas palavras. Use todos os seus sentidos e engaje-se no processo de ensino e aprendizagem. Seja curioso e divirta-se no processo! De Skinner a Maslow a mensagem é a mesma. Temos necessidades e buscamos algo. Se queremos Y e ele é função de X, buscaremos a X naturalmente. Seja pela vertente mais crítica ou pela mais clássica, pela motivação ou pela liderança: aprender é uma necessidade e um desejo. Então encontre o equilíbrio entre oferta e demanda. Faça sim seus contratos psicológicos, mas procure relações ganha-ganha e de longo prazo.
Enquanto vivermos iremos aprender, ou seja, seremos de alguma forma alunos. E é um prazer para aquele que sabe transbordar-se em ensinamentos para os outros. É claro que o aluno de hoje amanhã será o professor. Logo, honre os mais velhos. Saiba que estamos sempre sobre os ombros de gigantes. Nos ajudamos entre gerações em uma longa e admirável construção do que é a história humana.
Para finalizar, deixo uma reflexão. Se Lima Barreto nos contou sobre o homem que, por se dispor a aprender e ensinar uma língua estranha, se tornou diplomata, quem sabe as oportunidades que te esperam nesta jornada de aprendizado e ensino que é a derradeira natureza da administração?
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